quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Histórias dos cemitérios do eixo Rio-São Paulo.



O primeiro cemitério como conhecemos hoje- ao ar livre da cidade, particular e restrito - instalado no Brasil foi o Cemitério dos Ingleses, na Gamboa, Rio de Janeiro, então capital do Reino Transcontinental da Casa de Bragança, e o primeiro sepultamento se deu em 15 de janeiro de 1811 (205 anos).
O terreno foi adquirido por Lord Percy Clinton Sydney Smythe GCB GCH, sexto Visconde de Strangford, também conhecido como Lorde Strangford, (1780 - 1855) foi um diplomata irlandês, Embaixador do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, a Gertrudes, a Romana, a Ana, a Isabel e a Leandro, filhos herdeiros de Simão Martins de Castro e Páscoa da Ressurreição.
O terreno na realidade era uma chácara distante do centro da cidade do Rio de Janeiro denominada a "Forno do Cal", situada na Rua da Gamboa, número 181, ou seja, localizada ao pé do Morro da Gamboa, um local privilegiado já que havia “um atracadouro próprio, situado no então "Saco da Gamboa", para o desembarque dos oficiais e marinheiros ingleses que morriam nas longas travessias do Atlântico”.
Foi Sua Majestade Fidelíssima El-Rey para Portugal.
Levou consigo os restos mortais da senhora Dona Maria I, Majestade Fidelíssima Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc, que havia sido sepultada no Convento de Nossa Senhora da Conceição da Ajuda, ou simplesmente Convento da Ajuda, já demolido no centro do Rio de Janeiro que ficava no local onde hoje é a Cinelândia, o de seu sobrinho e genro o senhor Dom Pedro Carlos António Rafael José Xavier Francisco João Nepomuceno Tomás de Vilanova Marcos Marcelino Vicente Ferrer Raimundo de Bourbon e Bragança, Infante de Espanha e Portugal, que estava sepultado no Convento de Santo Antônio, localizado no alto do Morro de Santo Antônio e voltado para o Largo da Carioca.
“ A partir de 1828, começaram a surgir leis proibindo os sepultamentos em igrejas e determinando a criação de cemitérios municipais, em áreas afastadas do núcleo urbano, com muros altos a fim de se evitar a transposição de animais domésticos, longe de cursos fluviais e de áreas inundáveis”.
A padrecada ficou furiosa porque diminuía assim a sua renda mensal, e partiram para resistência, pois desde “ a lei municipal de 04/10/1830, haviam sido proibidos os sepultamentos nas igrejas, sacristias e conventos”.
Contudo “ os discursos médicos dominantes, balizados na teoria miasmática, difundiam a crença de que o ambiente era o responsável pela formação e alastramento de doenças, pois afirmavam que que o processo de decomposição da matéria orgânica era um elemento fundamental para a formação e desenvolvimento de focos de enfermidades”.
Morreu Dona Leopoldina, a primeira Imperatriz do Brasil, em 1826, “foi sepultada no Convento da Ajuda,  e quando o convento foi demolido, em 1911, os restos da Imperatriz foram trazidos ao Convento de Santo Antônio, no qual foi construído um mausoléu para ela e alguns membros da Família Imperial”.
Em abril de 1831 o senhor Dom Pedro I alegremente partiu para conquistar Portugal. 
E veio a Epidemia da Cólera que “ eclodiu no Norte da África em 1839, mas que atingiu a América do Sul, e que pela primeira vez afetou o Brasil, pois foi trazida por marinheiro que faziam os transportes intercontinentais”.
Com isso foi organizado na Ponta do Caju, em uma gleba adquirida de José Goularte por Jose Clemente Pereira, então Provedor da Santa Casa de Misericórdia, o Campo Santo da Misericórdia para serem sepultadas as vítimas de cólera. O primeiro sepultamento foi de "Vitória, creola, filha de Thereza, escrava de Manoel Rodrigues dos Santos" (grafia arcaica da época) no dia 2 de julho de 1839.
O Campo Santo da Misericórdia foi usado para sepultamentos de escravos e indigentes até 1851, pois antes de 1839 eles eram sepultados “ no cemitério velho da Rua Santa Luzia, onde agora estava sendo erguido o novo hospital da Santa Casa (existente até os dias atuais) ”.
“O Cemitério da Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, mais conhecido como Cemitério do Catumbi, situado entre as ruas Itapiru e Catumbi, no aprazível bairro do Catumbi, pertencente e  administrado pela Venerável Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula desde a sua criação (atualmente possui, também, um crematório), teve seu primeiro sepultamento em “ 20 de maio de 1850 e já no seu primeiro ano de funcionamento foram enterrados cerca de três mil corpos, a imensa maioria de vítimas da epidemia da febre amarela que então grassava na Corte, mais 323 irmãos da Congregação, além de ter sido transladados para lá cerca de 450 restos mortais, na sua maior parte da nobreza brasileira, que estavam sepultados na Igreja de São Francisco de Paula, situada no Largo de São Francisco de Paula, no centro histórico da cidade do Rio de Janeiro, como atestam os documentos da Ordem”.
Decreto de criação dos cemitérios.
O Governo Imperial “ pelo decreto nº 842, de 16 de outubro de 1851, funda os Cemiterios publicos de S. Francisco Xavier e S. João Baptista nos suburbios do Rio de Janeiro. Convindo determinar o numero e localidade dos Cemiterios publicos, que, em virtude do Decreto Nº 583 de 5 de Setembro de 1850 se devem estabelecer nos suburbios da Cidade do Rio de Janeiro: Hei por bem que desde já se fundem dous, hum com a denominação de S. Francisco Xavier, no lugar da Ponta do Cajú, em que se acha estabelecido o Campo Santo da Misericordia, e no terreno das duas chacaras a este contiguas; e outro com a denominação de S. João Baptista, no lugar do Brequó em terrenos pertencentes á de Hutton, ao Doutor Francisco Lopes da Cunha e a Manoel Carlos Monteiro.
[ assinado pelo ] Visconde de Mont'alegre, do Conselho d'Estado, Presidente do Conselho de Ministros, Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios do Imperio, assim o tenha entendido, e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro em dezeseis de outubro de mil oitocentos cincoenta e hum, trigesimo da Independencia e do Imperio. Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador”.

José Clemente Pereira, também conhecido como José Pequeno, dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro e da Imperial Ordem da Rosa,  português nascido em Ade, hoje “ agregada às freguesias de Castelo Mendo, Monteperobolso e Mesquitela, para formar uma nova freguesia denominada União das Freguesias de Castelo Mendo, Ade, Monteperobolso e Mesquitela com sede em Monteperobolso”, em 17 de fevereiro de 1787 e falecido na Corte do Rio de Janeiro em 10 de março de 1854, com 67 anos, foi o “ líder das manifestações populares do Dia do Fico, Deputado Geral, Administrador do Rio de Janeiro, Ministro dos Estrangeiros, Ministro da Justiça, Ministro da Guerra, Conselheiro de Estado, Ministro da Fazenda, Senador do Império do Brasil, além de Provedor da Santa Casa de Misericórdia de 25 de julho de 1838 e permaneceu na Provedoria até 10 de março de 1854, quando faleceu”.
Por suas benemerências - provedor da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro durante vários anos e criador do Hospício Pedro I-  sua viúva, Dona Engrácia Maria da Costa Ribeiro Pereira, filha do tenente-coronel Manuel José da Costa, dos Açores, e de Rita Maria do Carmo, ricos fazendeiros com várias propriedades urbanas no Rio de Janeiro e uma fortuna em títulos de créditos, em 13 de março de 1854, apenas 3 dias depois da morte de José Clemente Pereira, foi agraciada com o título de Condessa da Piedade, por SMI Dom Pedro II.
José Clemente Pereira era um homem de grande influência política em 1851 “ obteve a concessão dos serviços funerários pelo Governo Imperial.
“O Governo Imperial pelo Decreto nº 843 de 18 de outubro de 1851 - Commette a fundação e administração dos Cemiterios Publicos dos suburbios do Rio de Janeiro, e o fornecimento dos objectos relativos ao serviço dos enterros á Irmandade da Santa Casa da Misericordia da mesma Cidade, por tempo de cincoenta anos -  assinado pelo Visconde de Mont'alegre, Conselheiro d'Estado, Presidente do Conselho de Ministros, Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios do Imperio, com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador – entregou pelo prazo de 50 anos para Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro o serviço funerário da Cidade

Nota: José da Costa Carvalho, o Visconde de Mont'Alegre que depois de 2 de dezembro de 1854, por Ordem de Sua majestade Imperial, passou a ser chamado de o Marquês de Mont' Alegre, (Salvador, 7 de fevereiro de 1796 — São Paulo, 18 de setembro de 1860) foi um político e magistrado brasileiro, membro da Regência Trina Permanente e Primeiro-ministro do Império do Brasil, de 8 de outubro de 1849 a 11 de maio de 1852. Está sepultado no Cemitério da Consolação em São Paulo.

Assim o “ Cemitério de São Francisco Xavier, popularmente conhecido como Cemitério do Caju, localizado no bairro do Caju, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o maior cemitério do Estado do Rio de Janeiro, com 441 mil m², e um dos maiores do Brasil, passou para as mãos da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, e em março de 2015 para a Concessionaria Reviver, formada pelas empresas União Norte, do Rio de Janeiro, e pela RMG Empreendimentos, de Minas Gerais, que são referências nos setores em que atuam”.
 Assim “ o Cemitério São João Batista, de frente para Rua General Polidoro, 333 ( antiga Rua do Brequó por causa do Rio Brequó) , estendendo-se desde daquela frente, até as vertentes do Morro de São João, ladeando a Rua Real Grandeza ,  tendo na parte plana a superfície de 183.123 metros quadrados, com cerca de 25 mil túmulos, com hoje aproximadamente 65 mil corpos sepultados, a maioria de católicos, foi entregue pelo Governo Imperial para sua administração a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, mas que desde agosto de 2014 é gerido pela empresa privada Rio Pax, formada  pela Agência funerária Rio Pax, pela Solucard Administradora de Cartões e Convênios e pela funerária Cintra”.
“ A Venerável e Arquiepiscopal Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo foi fundada no Rio de Janeiro em 19 de julho de 1648, pelos senhores Dr. Balthazar de Castilho de Andrade (eleito Prior), André da Rosa, Francisco Nunes, Frei Antônio dos Anjos e Frei Ignácio da Purificação, e em 1857 abriu uma subscrição entre os irmãos que atingiu a quantia de 26:100$000 (vinte e seis contos e cem mil réis) para a construção de um cemitério para seus irmãos e familiares”.
“Com esses recursos foi adquirido um terreno de 110 metros de frente por 191,40 metros de fundos, que pertencia à Santa Casa de Misericórdia, no bairro do Caju, hoje Rua Monsenhor Manuel Gomes, 287 ”.
“Em 11 de março de 1859 procedeu-se a bênção do terreno para as obras”.
“Outras subscrições foram feitas para a construção da capela e os sepultamentos dos cadáveres começaram em 27 de junho de 1869 ”.
No Cemitério da Venerável e Arquiepiscopal Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo estão sepultados as bisavós paternos desse autor, o comerciante português Manoel Martins da Fonseca e sua esposa, Dona Hermínia Pereira da Fonseca, os avós paternos, o comerciante português Albino Dias Fontes Garcia e sua esposa, Dona Carlinda Fonseca Garcia, outros parentes e amigos.
“ A Irmandade da Ordem Terceira da Penitência surgiu em 1619, no morro de Santo Antônio, funcionando inicialmente numa capela transversal à Igreja do Convento Franciscano de Santo Antônio. Em meados do século XVII, iniciaram a construção de um templo próprio, cujas obras levaram mais de um século para serem concluídas. Inicialmente, os Irmãos da Penitência eram todos enterrados na Igreja Conventual até que ficou pronta sua própria, onde passaram a ser sepultados a partir de então. Em princípios do século XIX, foram construídas catacumbas nos fundos do templo, mas que logo ficaram lotadas. Com a proibição de enterramentos nas igrejas os irmãos tiveram a ideia de construir um campo santo próprio. No dia 10 de junho de 1857, a Irmandade da Ordem Terceira da Penitência solicitou à Santa Casa de Misericórdia a cessão de um terreno de 65 braças de frente para a Praia de São Cristóvão. O pedido foi deferido pelo Provedor, e assim o novo cemitério começou a funcionar em 1º de março de 1858. Dessa forma, os sepultamentos nas catacumbas do morro de Santo Antônio foram encerrados e as sepulturas que estavam lá, transferidas para o novo espaço” – site: http://cemiteriodapenitencia.com.br/historia/
O endereço atual do cemitério é a Rua Monsenhor Manuel Gomes, 307 - CAJU - Rio de Janeiro – RJ.
Os Judeus, também, tiveram e têm seus cemitérios na Cidade do Rio de Janeiro.
O Cemitério Israelita de Inhaúma, no Bairro de Inhaúma, também conhecido como Cemitério das Polacas, fundado pela Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (ABFRI), em 10 de outubro de 1906 e ficou ativo até o início da década de setenta do século XX, quando a Associação que o dirigia se extinguiu. O local foi tombado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, através do Decreto N. º 28.463, de 21 de setembro de 2007.  “ No cemitério se encontram os túmulos de Ela Pick, mãe do instrumentista Jacob do Bandolim, e de Estera Gladkowicer, que inspirou Moreira da Silva a compor em parceria com Jorge Faraj o samba "Judia Rara" (1964)”.
O Cemitério Comunal Israelita do Rio de Janeiro, também chamado de Cemitério Israelita do Caju, inaugurado em 1955 e possui mais de 6.500 sepulturas, está localizado à Rua Mons. Manoel Gomes, 311 – Caju- formado assim “ o conjunto de necrópoles com o Cemitério da Ordem Terceira do Carmo, com Cemitério da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e com Cemitério do Caju (Cemitério de São Francisco Xavier). Em 1975 foi inaugurado junto à entrada do cemitério um Monumento Memorial às vítimas do Holocausto. O Cemitério Comunal Israelita do Rio de Janeiro é administrado pela Sociedade Cemitério Comunal Israelita do Rio de Janeiro.


Continua...