quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O Teatro de Revista, o Teatro Rebolado na masemba, virou lundum, que virou maxixe, donde nasceu o SAMBA - 6 - autor: Jorge Eduardo Fontes Garcia



Uma das primeiras montagens de Walter Pinto - Teatro Recreio -  Rio de Janeiro, anos 40.

A primeira peça de revista que assisti foi no Teatro Carlos Gomes na Praça Tiradentes, que é um dos teatros mais tradicionais do país, que pela primeira vez foi inaugurado em 1872, depois sofreu três grandes incêndios.
Não me lembro do nome da peça, mas me lembro de uma cena com um candelabro, e uma piada, que vou transcrever, se minha memória permitir:
“ Lá atrás daquela serra tem um cume, quanto mais o sol bate, quanto mais o cume arde”.
Não esqueci. 
Mais, esqueci quem foi o artista que contou.
Acredito que essa piada foi inspirada no “Poema do cume!!”, de autor anônimo, que está em  https://youtu.be/cOO9TzFqPzk ,  e é o seguinte:
No alto daquele cume
Plantei uma roseira
O vento no cume bate
A rosa no cume cheira.
Quando cai a chuva fina
Salpicos no cume caem
Formigas no cume entram
Abelhas do cume saem.
Quanto cai a chuva grossa
A água do cume desce
O barro do cume escorre
O mato no cume cresce.
Quando cessa a chuva
No cume volta a alegria
Pois torna a brilhar de novo
O sol que no cume ardia!



No sentido horário, Machado acompanhado de Irma Alvarez e Norma Tamar; ao conhecer o Xá da Pérsia e a Imperatriz Farah Diba, durante um espetáculo; e com seu porte todo elegante.
Créditos: Reprodução/Arquivo pessoal/istockphoto.com

 Walter Pinto 

Na minha mocidade haviam dois grandes empresários do gênero que eram Walter Pinto e Carlos Machado, na casa desse último eu fui, um belo duplex no último andar do Edifício Bocaina, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 259   - Copacabana - Rio de Janeiro, RJ.
Eram notáveis os figurinos de Gisela Machado, esposa de Carlos Machado, uma das poucas mulheres realmente elegantes que vi em minha vida, marcaram toda uma Época Aurea do Rio de Janeiro.
Elegantíssima, filha de família tradicional, prima da escritora Rachel de Queiroz e bisneta de Chiquinha Gonzaga, Gisela Maria Mancebo de Vasconcellos nunca imaginaria que um dia iria assinar Machado em seu sobrenome. O bom gosto, o refinamento e sofisticação dela foram fundamentais para a consagração de Carlos Machado no show business. Eles se conheceram em Petrópolis, no verão de 1940, e em 20 de julho de 1942 se casaram no Mosteiro São Bento.
Gisela sempre fechou um olho, às vezes dois, para as escapadinhas do marido, que, como bom gaúcho, gabava-se de suas aventuras. Ela, mesmo fazendo os figurinos dos shows, raramente era vista ao lado do marido. Foi durante um desfile de compras, nas lojas de tecidos Casas Canadá, que Gisela convidou uma das manequins da maison para ser vedete dos shows do marido. Era Norma Bengell, que mais tarde faria carreira internacional. Fonte: http://glamurama.uol.com.br/o-rei-dos-anos-dourados-historias-e-o-glamour-de-carlos-machado/


Machado com os filhos, José Carlos e Djenane, e a mulher, Gisela.
Créditos: Arquivo pessoal/Reprodução


Mais, nas “ companhias teatrais de Teatro rebolado” de Walter Pinto e Carlos Machado, foi assim que passamos a chamar o Teatro de Revista no Brasil, nas peças que montavam, atuaram atrizes – chamadas de vedete- como:
Íris Maria Brüzzi de Medeiros - Íris Bruzzi – que foi casada com Walter Pinto; A belíssima e estonteante com seus cabelos cor de fogo Mara Rúbia (Osmarina Lameira Colares Cintra, nascida na Ilha de Marajó);
Norma Bengell (Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d'Áurea Bengell);
Virgínia Lane (Virgínia Giaccone);
A deslumbrante, meu sonho de moço, Carmem Verônica (a pernambucana Carmelita Varella Alliz Sicart);
A paulista Esther Tarcitano;
Dorinha Duval (a paulista Dora Teixeira, que foi casada com e Daniel Filho, da também atriz Carla Daniel);
Anilza Leoni (a catarinense Anilza Pinho de Carvalho, considerada “ uma das maiores vedetes do teatro rebolado");
A fabulosa Rose Rondelli ( Rosermy Rondelli que foi casada com Chico Anysio, mãe de Nizo Neto, nome artístico de Francisco Anízio de Oliveira Paula Neto);  Maria Pompeu;
Irma Álvarez (a argentina Irma Rufina Álvarez);
Angelita Martinez (que se dizia que era amante de Jango),
Aracy Cortes- ver abaixo (a carioca Zilda de Carvalho Espíndola, que era cantora e vedete. Foi quem cantou pela primeira vez “ Aquarela do Brasil”, um samba-exaltação de Ari Barroso);  
Berta Loran (a judia Basza Ajs nascida em Varsóvia, Polônia, em 23 de março de 1926, mas que “ em 1937, aos 11 anos, mudou-se com a família para o Brasil, instalando-se num sobrado na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro)
Consuelo Leandro (paulista de Lorena Maria Consuelo da Costa Ortiz Nogueira que casou com Agildo Ribeiro),
Elizabeth Gasper (alemã de nascimento),
Elvira Pagã (Elvira Olivieri Cozzolino, casou com Theodoro Eduardo Duvivier Filho, o famoso playboy conhecido internacionalmente como Eduardinho Duvivier),
Ilka Soares (Ilka Hack Soares, que foi casada com Anselmo Duarte e Walter Clark, que “em junho de 1984 foi a brasileira com mais idade (52 anos) a posar nua para a revista Playboy, marca superada em abril de 2003 por Helô Pinheiro, com 57 anos),
Luz Del Fuego (Dora Vivacqua da terra do Rei Roberto Carlos, ou seja, Cachoeiro de Itapemirim. Irmã do senador Attilio Vivacqua, que em “ Em 1944 inicia suas apresentações como "Luz Divina", no picadeiro do circo "Pavilhão Azul", posteriormente por sugestão do e palhaço Cascudo, mudaria o nome para Luz del Fuego, nome de um batom argentino recém-lançado no mercado. Adepta da alimentação vegetariana e do nudismo, não fumava, nem ingeria bebidas alcoólicas e, através de uma concessão da Marinha, obteve licença para viver na ilha Tapuama de Dentro, que foi por ela rebatizada como "Ilha do Sol" e onde fundou o primeiro clube naturista do Brasil, o "Clube Naturalista Brasileiro");
Salomé Parísio (a pernambucana de Bonito Dulce de Jesus de Oliveira)
Marli Marley (a mato-grossense Marly Marley de Toledo, que casou com o humorista Ary Toledo).
Nélia Paula, de Niterói, mas que faleceu vítima de ataque cardíaco aos 72 anos de idade no Rio de Janeiro;
Renata Fronzi (a argentina Renata Mirra Ana Maria Fronzi, que foi casada com o celebre radialista da Rádio Nacional César Ladeira e mãe de César Ladeira Filho e do músico Renato Ladeira),
Sonia Mamede (carioca que casou com Augusto César Vanucci),  
Wilza Carla de Niterói, intérprete de papéis sensuais, posteriormente, aproveitando o fato de que havia engordado bastante, celebrizou-se nos filmes do gênero "pornochanchada". Seu grande momento foi como Dona Redonda na novela Saramandaia, da Rede Globo. Morreu necessitada em São Paulo)
Entre outras.
 Dercy Gonçalves.

Dolores Gonçalves Costa, nascida em Santa Maria Madalena, 23 de junho de 1907, ou seja, a impagável Dercy Gonçalves, cujas peças a mãe de minha mãe, Dona Regina Alves Barreto de Almeida, ia com meu pai. Dercy faleceu em 19 de julho de 2008, com 101 anos de idade, no Rio de Janeiro, mas encontra-se sepultada em sua terra natal em Santa Maria Madalena em uma pirâmide de vidro e mármore.
Tumulo de Dercy

Os atores como Oscarito, Grande Otelo, Blecaute (também como cantor), Ankito, Costinha, José Vasconcellos, entre outros.
Vários compositores atuantes na época, como Freire Júnior, Eduardo Souto, Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Lamartine Babo, Hekel Tavares, Ary Barroso.
 Caymmi, Haroldo Barbosa, Almirante, Braguinha, etc...
Chamo atenção que “ Walter Pinto trouxe para a artista Ivaná, primeiro transexual de grande sucesso nos espetáculos franceses”.
No https://youtu.be/CX3BedMpkRY está escrito “Ivaná (Ivan Monteiro Damião), a primeira travesti do teatro de revista brasileiro no filme Mulher de Verdade, de Alberto Cavalcanti. Para saber mais sobre Ivaná, leia sua biografia no livro Cá e Lá, o Intercâmbio Cinematográfico entre o Brasil e Portugal, de Diego Nunes. Curta a página, o livro pode ser adquirido por lá”.



Mais o que era esse Teatro de Revista, que virou Teatro Rebolado?
O teatro de revista tornou-se um gênero popular no Brasil a partir do final do século XIX.
Entre os principais escritores de revista estava Arthur Azevedo. Em uma de suas revistas, intitulada A Fantasia (1896), ele apresenta a seguinte definição para o gênero:
"Pimenta sim, muita pimenta
E quatro, ou cinco, ou seis lundus,
Chalaças velhas, bolorentas,
Pernas à mostra e seios nus"....



No Dicionário Cravo Albin da Musica Popular Brasileira, verbete Teatro de Revista - Dados Artísticos:
Gênero de teatro musicado surgido no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX.
Foi um grande lançador de compositores e músicos populares, numa época em que o principal mercado de trabalho era o teatro, os cabarés e os cafés dançantes.
O gênero firmou-se como consequência de uma necessária opção de lazer para as camadas da crescente classe média urbana do Rio de Janeiro.
Tinha como característica passar em revista os principais acontecimentos do ano, pondo em cena os fatos, revividos com humor e com o recurso da dança e da música. Segundo J. R.Tinhorão, o ambiente para o aparecimento desse gênero de teatro começou a ser preparado desde 1859, pelo gênero alegre do Alcázar Lyrique, do francês Joseph Arnaud.
Nesse mesmo ano, foi encenada "As surpresas do sr. José da Piedade", de Justino de Figueiredo Novais, considerada a primeira revista nacional, encenada sem sucesso no Teatro Ginástico.
A partir da década de 1880, com o aumento da classe média e com a crescente intensificação dos serviços urbanos, o teatro de revista consolidou-se.
Nessa época, Artur Azevedo já fazia sucesso com suas revistas, que contribuiriam para torná-lo o grande nome do teatro musical brasileiro.
No início, o novo gênero sofreu a influência das revistas europeias.
Em 1887, com a apresentação da revista "La gran via", encenada por uma companhia espanhola, o teatro musicado brasileiro sofreu uma transformação com a descoberta de números musicais cantados por coristas em movimento. As revistas brasileiras lançaram, a partir dessa época, um estilo que valorizava a canção popular, que acabaria tendo o teatro como seu importante divulgador. Esse fato foi o ponto de partida para usar o carnaval como tema nas revistas. Um ano depois do sucesso de "La gran via", Oscar Pederneiras estreou, no Teatro Recreio, uma revista com o nome "O boulevard da imprensa", na qual estariam representadas as três maiores sociedades carnavalescas do Rio de Janeiro: os Democráticos, os Tenentes do Diabo e os Fenianos. Cantadas nos palcos dos teatros, as músicas muitas vezes caíam na boca do povo, transformando-se em sucesso.
Foi o caso do tango "Araúna" ou "Xô, Araúna", lançado em 1885 na revista "Cocota", de Artur Azevedo.
Era um lundu amaxixado, interpretado na peça por Filipe de Lima, que foi tão cantado na época, que chegou a ser sucesso nacional (foi ouvido na voz de uma vendedora de balas da capital do Rio Grande do Sul, pelo gaúcho Aquiles Porto Alegre).
Outro sucesso foi o tango "As laranjas da Sabina", inspirado em caso policial, envolvendo uma ex- escrava gorda, vendedora de laranjas, que foi obrigada a retirar seu tabuleiro de laranjas por causa de uma manifestação de caráter republicano, promovida pelos estudantes de Medicina que costumavam frequentar sua barraca.
O caso rendeu até uma passeata.
O episódio ficou famoso porque os estudantes chegaram a jogar as laranjas da Sabina no exato momento em que a carruagem da princesa imperial regente passava em frente à barraca, quase sendo atingida pelos manifestantes.
Esse fato inspirou os irmãos Artur e Aluísio Azevedo a incluírem na revista "República" uma cena onde a atriz Ana Manarezzi, caracterizada como a baiana Sabina, canta o famoso tango.
Esse fato introduziu a figura da baiana como personagem reincidente nos palcos brasileiros.
Outro sucesso saído dos palcos do teatro musicado foi o tango "Gaúcho", de Chiquinha Gonzaga, uma das grandes compositoras do teatro de costumes brasileiro. Tocado e cantado por Machado Careca pela primeira vez na revista "Zizinha maxixe", de 1897, tornou-se um dos maiores sucessos da música popular brasileira.
Conhecido com o nome de "Corta-jaca", chegou a ser interpretado ao violão pela primeira-dama Nair de Teffé, no Palácio do Catete, em episódio que escandalizou a elite política e social de então.
Dentre os grandes maestros compositores que atuaram no teatro de revistas, podemos citar, além de Chiquinha Gonzaga, Nicolino Milano, Paulino Sacramento, Bento Moçurunga, Antônio Sá Pereira, Sofonias Dornelas, Adalberto Gomes de Carvalho, Costa Júnior, Bernardo Vivas, Júlio Cristóbal, Assis Pacheco, José Nunes, Luz Júnior, Domingos Roque, Roberto Soriano. Além deles, podemos citar os grandes cantores: Xisto Bahia, o cômico Vasques, Filipe de Lima, Ana Manarezzi, Maria Lino e tantos outros.
Posteriormente, veio uma nova geração de compositores e cantores que acabou sendo absorvida pelo rádio e pela indústria fonográfica: Freire Júnior, José Francisco de Freitas, Baiano, Araci Cortes, Pepa Delgado, Pepa Ruiz, Ismênia Mateus, Eduardo Souto, Sinhô, Henrique Vogeler, Hekel Tavares, Sebastião Cirino, Pixinguinha, Lamartine Babo, Ary Barroso, Augusto Vasseur, Vicente Celestino e tantos outros. Nossos grandes revistólogos foram Artur Azevedo, Oscar Pederneiras, Augusto Fábregas, Freire Júnior, Luís Peixoto, Luís Iglesias, Carlos Bittencourt, Cardoso de Meneses, Bastos Tigre, Marques Porto, Irmãos Quintiliano e outros.
Dentre os grandes sucessos vindos do teatro musicado, podemos citar, além do "Corta-jaca", de Chiquinha Gonzaga, "Vem cá, mulata", de Costa Júnior; o tango "Forrobodó", de Chiquinha Gonzaga; "O pé de anjo" e "Fala, meu louro", de Sinhô; "Ai, Ioiô", de Henrique Vogeler e Luís Peixoto; "Joujoux e balangandãs", de Lamartine Babo, e "No tabuleiro da baiana", de Ary Barroso, entre dezenas de outros títulos.  
Fim do verbete do DCAMPB.


 Surgido no Rio de Janeiro em 1859, com a revista de Justino de Fiqueiredo Novais intitulada As surpresas do Sr. José da Piedade, relacionada ao ano de 1858 em dois atos e quatro quadros. Essa revista foi estreada no Teatro Ginásio, dia 15 de janeiro de 1859. Esse novo gênero de teatro com música firmou-se definitivamente a partir da década de 1880, com o aparecimento do magnifico Artur de Azevedo que se tornou o maior nome do teatro musicado brasileiro em todos os tempos.
A partir da década de 1920, o teatro de revista sofreu a influência do cinema e seu tempo foi diminuído e passaram a concorrer, também, com os mágicos o que conduziu o gênero para o show, cuja tendência aumentou na década de 1930 com os espetáculos internacionais dos cassinos. Em 1935, foi encenada no Teatro Recreio, a revista de Freire Junior, intitulada Bailarina do cassino. Dessa forma a importância do teatro musicado passou para os shows de boate ou de teatros com o objetivo de atender a um público mais exigente.
Naqueles momentos, aportam no Rio de Janeiro duas companhias européias que iriam ditar a mudança completa do comportamento do gênero, tanto no palco como fora dele.
Salvyano Cavalcanti de Paiva conta, no livro Viva o rebolado, como foi a reação nacional à presença da companhia francesa Ba-Ta-Clan: “Despertaram interesse, surpresa e sensação a saúde e a marcação das coristas, de corpo escultural, a música viva e funcional, os cenários magnificentes, a movimentação de luzes e cores que ampliava os efeitos estéticos e cenográficos e, em especial, o apelo erótico alcançado mediante a mostra generosa do nu feminino – que a Censura, no primeiro momento, não ousou proibir para não parecer matuta.
Isto chocou mais aos empresários que ao público; verificaram, por fim, o acanhado das suas realizações. A consequência mais imediata foi a supressão das meias e das grosseiras roupas de malha das coristas. E tentativas de melhorar, enriquecer, as apoteoses: isto representou mudança radical na cenografia e nos figurinos e a introdução de uma coreografia consciente nos números de dança coletiva, até então executados na base do improviso”.
As observações se prestam também à companhia madrilense Velasco, que junto com a francesa trouxeram a feérie para o público carioca.
Foi tal o impacto das mulheres européias no país que, em São Paulo, um jovem tentou suicidar-se, saltando do viaduto do Chá, por amor a uma das francesinhas, e Juca Paranhos, futuro barão do Rio Branco, casou-se com a corista belga Marie Stevens.
A primeira revista brasileira não chegou a ficar em cartaz uma semana, por falta de público e proibição da censura, após a estreia.
Denominava-se “As surpresas do Sr. José da Piedade”, e foi encenado no Teatro Ginásio, no Rio de Janeiro, em 1859.
A segunda tentativa foi em 1875, com a A Revista do Ano de 1875, escrita por Joaquim Serra, mas que acabou fracassando por excesso de sátiras políticas. Ainda nesse ano, do mesmo Serra, Rei morto, rei posto dá sinais de que público começava a aceitar o novo tipo de teatro.
O grande sucesso brasileiro apareceria em 1883, com o O Mandarim, espetáculo de Artur Azevedo e Moreira Sampaio, com a participação do cançonetista e compositor Xisto Bahia, considerado um dos maiores artistas populares de sua época e, segundo o próprio Artur Azevedo, “o ator mais nacional que tivemos”. Como revista inteiramente brasileira, a primeira carnavalesca a ser montada intitulava-se O Boulevard da Imprensa de Oscar Pederneiras.
Portugal nos manda, em 1892, suas cançonetistas da revista Tintim por tintim, com bastante êxito.
A revista como balanço do ano desaparece no início do século. É o momento em que a música começa a tomar espaço maior no palco e o Carnaval a ser um dos seus principais motes, envolvendo-se o teatro de revista com as grandes sociedades carnavalescas, como os clubes dos Fenianos, Tenentes do Diabo, dos Democráticos e outros.

Na revista O Maxixe, em 1906, é lançado Vem cá mulata (Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre), no mesmo ritmo do título.
O teatro de revista como lançador de músicas que o povo adotaria de imediato. O público crescente deixava-se seduzir por um tipo de teatro que alcançava uma estrutura tipicamente brasileira, mais que isso, carioca, e a revista assumia agora o papel que cumpriria nos anos seguintes, de lançadora de sucessos da música popular brasileira.

Cidade essencialmente musical, mesmo assim, o Rio de Janeiro só veria o prestígio do teatro de revista consolidado, nos últimos anos da década de 10 e nos primeiros da de 20.
Assumida inteiramente a função de vitrine, abriria os palcos para compositores populares, que os levariam à celebridade, transformaria vedetes-cantoras nas mulheres mais desejadas e cobiçadas do país.
Nos anos 20, o nome mais famoso a ter suas composições levadas a cenas foi José Barbosa da Silva, o Sinhô, que se autointitulada o Rei do Samba.
Chegou à proeza – em duas ocasiões – de ter o mesmo samba cantado em duas revistas diferentes, encenadas simultaneamente.
Em 1920, estreia a revista Papagaio Louro, com mais um samba de Sinhô, “Fala meu louro”, e no Teatro São José, “Quem é bom já nasce feito”, aproveitando o nome de outro samba dele.
Luiz Peixoto chega de Paris e encena Meia noite e trinta, colocando no palco tudo o que aprendera lá. É a pá de cal no enterro da velha revista, que agora tem gosto refinado em cenários, guarda-roupa, iluminação, textos, e oferece muito melhores condições aos seus lançamentos musicais.

Adendo meu: Luís Carlos Peixoto de Castro Por 45 anos foi um dos nomes mais importantes do teatro de revista do Brasil, tendo produzido mais de cem peças do gênero.

Francisco Alves é uma das atrações, ao lado de sua mulher Nair. Além de cantar, dança desenvolto com ela. Ainda em 1923, Chico Alves participaria, junto com da iniciante Araci Cortes, da revista Sinhô de ópio, na qual interpretava um almofadinha cantor. A partir daí sua presença torna-se mais rara até por volta de 1930, quando abandona o teatro e passa a se interessar mais por gravações e programas radiofônicos. Durante 15 anos, o teatro de revista foi a sua vitrine.

Adendo meu: Francisco Alves, o Rei da Voz.
Francisco de Morais Alves (Rio de Janeiro, 19 de agosto de 1898 — Pindamonhangaba, 27 de setembro de 1952) foi um dos mais populares cantores do Brasil. Filho de portugueses, nasceu na Região Central do Rio de Janeiro, mais precisamente à Rua Conselheiro Saraiva.
Seu pai era dono de um botequim. Começou a cantar em 1918, nas companhias de teatro de João de Deus e Martins Chaves, e após, na companhia de Teatro São José, pertencente a José Segreto.
De 1927 até sua morte em 1952 nunca parou de gravar, daí se explicam os seus 524 discos. Ao contrário do que muitos pensam, ele não foi o primeiro a fazer um disco pelo processo elétrico no Brasil. Francisco Alves começou sua carreira em 1918 no teatro. No ano seguinte, a convite de Sinhô, gravou 2 discos em uma gravadora recém-aberta pelo marido de Chiquinha Gonzaga, a Popular. As três músicas gravadas nesses discos - Alivia estes olhos, Papagaio louro e O pé de anjo - foram destinadas ao carnaval de 1920, sendo O pé de anjo a que obteve maior êxito ficando então como o primeiro sucesso de sua carreira.
Se dedicou por alguns anos (1920-1924) apenas no teatro até que em 1924 grava mais dois discos, estes na Casa Edison de Fred Figner.
Morreu carbonizado por ocasião de uma colisão entre seu automóvel e um caminhão, que imprudentemente entrou na contramão, na Via Dutra, em Pindamonhangaba, na divisa com Taubaté, estado de São Paulo, quando voltava ao Rio de Janeiro. Foi enterrado no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, cuja cripta atrai até hoje diversos visitantes e fãs.
Seu epitáfio foi escrito pelo jornalista David Nasser:
"Tu, só tu, madeira fria, sentirás toda agonia do silêncio do cantor".





Considerada uma das maiores estrelas do teatro de revista em todos os tempos, a paulista Margarida Max ( primeira personagem a esquerda)  formou, com Augusto Aníbal e João Lins, o trio principal de atrações da revista 'Onde está o Gato". De autoria de Geysa Bôscoli e Luiz Iglésias foi montada em 1929, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.

Um êxito estrondoso marcou o aparecimento, como estrela, de Margarida Max. A cinco de maio de 1924, estreou no Teatro Recreio, de Marques Porto e Afonso de Carvalho, a revista À La Garçonne, que modificaria costumes no país. Depois de trezentas representações, excursionou pelo Brasil, lançando a moda dos cabelos curtos para mulheres, “a lá garçonne” ou “a la homme”, tal como usava Margarida. Bonita, vistosa, talentosa e jovem, com enorme força interior, que faria dela a maior das vedetes do gênero. Iniciava ali uma carreira que acabaria por desbancar a estrelíssima Otília Amorim, vencendo as concorrências de Antônia Denegri, Eva Stachino, Lia Binatti, Zaíra Cavalcanti e da própria Araci Cortes, que ao final seria sua sucessora, sem contudo, alcançar seu status de grande dama do teatro de revista.
Até a chegada dos anos 40, o teatro de revista manteve sua missão de lançador da música brasileira.
Em 1939, na revista Camisa amarela, no Teatro Recreio, Moreira da Silva ainda encontra espaço para popularizar o samba de breque.
Daí para frente, mudaria a filosofia, entrariam as vedetes estrangeiras, reinariam as plumas e os paetês, o texto ganharia o espaço maior e o rádio passaria a ser o grande divulgador da música do povo. Grifo meu.
Dizem todos: / Tem uma graça feiticeira, / Só porque aqui nasci / Nesta terra brasileira / Com meu cheiro de canela / Minha cor de sapoti, / Dizem todos: / Lá vem ela! / O demônio da Araci!
O samba Graça de Araci, de Ary Barroso, na revista Não adianta chorar, encenada em agosto de 1929, no Teatro Recreio do Rio de Janeiro, retratava musicalmente a mais polêmica, musical e importante vedete que o teatro de revista brasileiro teve em toda a sua história.
Zilda de Carvalho Espíndola começou a escalada para a fama no teatro de revista brasileiro, ao integrar o elenco de Sonho de Ópio, estreada em novembro de 1923, no Teatro São José. A figura de mulher bem brasileira, a morenice tentadora e petulante, somadas à boa voz, segura interpretação e presença dominante em cena, logo fizeram dela atriz disputada pelos empresários para as montagens de revistas subsequentes.
Aliás, disputada foi a palavra que Aracy Cortes, nome artístico adotado por Zilda, mais ouviu em toda a sua vida. Disputava-se Aracy atriz, Aracy mulher e, principalmente, Aracy cantora. Em muito pouco tempo, a fama de intérprete afinada, maliciosa, de excelente estampa, agradando plenamente ao público, fazia com que todos os compositores a procurassem para ver suas músicas incluídas nas revistas por ela estreladas.
A princípio, Aracy era obrigada a cantar as músicas apontadas pelo repertório original dos espetáculos, mas sua força cresceu tanto que passou a impor composições e compositores de seu agrado. De tal forma que até mesmo algumas revistas acabavam por serem batizadas com nomes de suas músicas favoritas.
No início da carreira, houve, entre ela e o compositor Sinhô, como que uma troca de favores. Era ele quem tinha fama, enquanto ela era principiante. Mas depois de ter aprendido muito de interpretação com o maestro Paulino Sacramento, de ser dirigida e orientada por Luís Peixoto, Aracy começou a se ombrear com o compositor e, quando cantou dele, em 1929, o samba Jura, estava efetivamente consagrada. Todas as noites bisava e trisava, na revista Microlândia, de Marques Porto, Luís Peixoto e Alfredo de Carvalho, no Teatro Fênix, de início, e posteriormente no Palace-Théâtre. Interessava, então, a Sinhô que a força de Aracy fosse usada no lançamento de suas músicas

 Aracy Cortes

Mulher muito à frente de seu tempo, Aracy Cortes desde sempre desafiava preconceitos. Escorada na beleza física e na graça com que se apresentava nos palcos do teatro de revista, construiu carreira que lhe permitia todas as ousadias. Como a posar praticamente nua, "vestida" apenas com um violão, foto de 1924, resultando em um dos seus maiores sucessos, a canção "Gemer num violão", que ela interpretava de forma desabusada, sempre na certeza de ser chamada de volta ao palco, três ou quatro vezes por noite. Até encerrar em definitivo a carreira, no musical "Rosa de ouro", que a conduziu ao palco nos anos 60, manteve a pose e o charme de grande estrela.
Força que ficou patente em outro clássico absoluto da música popular brasileira, tido pelos pesquisadores como o primeiro samba-canção que se conhece. Linda flor, de Henrique Vogeler, fora lançado, com letra de Cândido Costa, em uma comédia musicada de Freire Júnior, chamada A verdade ao meio-dia, em agosto de 1928.
Cantada por Dulce de Almeida, passou despercebida.
Mais tarde, ao montar a revista Miss Brasil (no Teatro Recreio, em dezembro do mesmo ano), Luís Peixoto colocou nova letra, rebatizou-a como Iaiá, que acabou famosa como Ai, Ioiô, e entregou-a a Aracy.
Sucesso imediato no palco e definitivo em disco, com prêmio ganho até na Alemanha.
A voz de Aracy Cortes tinha o “toque de Midas”.
Nada mais natural, portanto, que fosse assediada por todos os grandes compositores.
Desde o maestro Paulino Sacramento, seu mestre musical, de quem lançou o samba Ai, madame, logo na estreia, até o consagrado Ary Barroso, todos a cortejavam. E ela rainha que era, aceitava tranquilamente a corte.
De Ary começou logo com Vou à Penha e Vamos deixar de intimidade (ambos, depois gravados por Mário Reis), lançados na revista Laranja da China, de Olegário Mariano, no Teatro Carlos Gomes, em 1929.
Lançou no teatro e no disco (de Ary e Lamartine Babo), Gemer num violão e, só de Ary, o citado Graça de Aracy, além de Eu sou do amor, Orgia, Boneca de piche, Deixa disso, Na batucada da vida, entre os mais conhecidos.
Noel Rosa, que pouca gente sabe ter andado pelo teatro de revista, entregou muito samba de sua autoria à voz de Aracy.
Em janeiro de 1931, na revista Deixa essa mulher falar, ela cantava do Poeta da Vila, Com que roupa?. Além deste, em outras revistas, Aracy voltou a interpretar Noel em primeira mão, com sambas depois consagrados em diversas gravações: Queixume, Gago apaixonado e Dona Aracy.
Muitos outros sambistas de respeito pediram a bênção à grande estrela. Wilson Batista contava que aos 16 anos, trabalhando como eletricista no Teatro Recreio, teve seu samba Na estrada da vida lançado por ela. Almirante viu seu clássico (em parceria com Candoca da Anunciação) Na Pavuna cantado por Aracy na revista Dá nela, no Teatro Recreio, em 1930.
Com tanto sucesso que virou nome de outra revista, montada por Freire Júnior no Teatro Cassino Beira Mar. De Ismael Silva e Nilton Bastos, ela lançou Se você jurar e, de Lamartine Babo, o samba Lua cor de prata e o antológico Canção para inglês ver.
Mário Lago entregou-lhe Beijei, e Custódio Mesquita fez para ela, em parceria com Paulo Orlando, O tempo passa. De Kid Pepe, Germano Augusto e Seda, Aracy imortalizou o samba Implorar.
Bastaria, enfim, a simples carreira de Aracy Cortes para justificar o teatro de revista como palco lançador de sucessos da música popular brasileira, em particular o samba. Grifo meu.
Mas, a revista ainda fez mais, durante algum tempo, antes de se tornar apenas um festival de plumas, pernas e piadas.
Grifo meu.
Em junho de 1941, por exemplo, estreava no Teatro João Caetano, sempre na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, a revista Brasil Pandeiro, de Freire Júnior e Luís Pereira, musicada pelo baiano Assis Valente. Luxuosa e feérica, a revista apresentava quadros empolgantes e apoteóticos, ideal para a sambista Horacina Correia, uma mulata transpirando ritmo, lançar o samba que dava título à revista: “O tio Sam está querendo / conhecer a nossa batucada. / Anda dizendo que o molho da baiana / melhorou seu prato. / Vai entrar no cuscuz, / acarajé e abará”.
No ano seguinte, Assis Valente volta à revista, musicando A vitória é nossa, de Geysa Bôscoli e Freire Júnior, e, em 1943, sempre tendo como pano de fundo a presença brasileira na Segunda Guerra Mundial, Assis e Freire se juntam de novo e encenam Rei Momo na Guerra, estrelado por Dercy Gonçalves. Grifo meu.
O ponto alto era a figura do compositor Geraldo Pereira e 150 passistas e ritmistas da Escola de Samba da Mangueira, que pela primeira vez evoluía em um palco de revista.Grifo meu.


Em 1944, Walter Pinto encena, assinada por Geysa Bôscoli e Luís Peixoto, a revista Momo na fila, sempre no seu reduto, o Teatro Recreio.
Novamente Dercy é a estrela, e o êxito alcançado no ano anterior leva a Mangueira de volta ao teatro de revista, desta vez uma mini-escola de samba completa, sempre dirigida por seu compositor Geraldo Pereira.
Para encenar To aí nessa boca, de 1949, J. Maia aproveitou a composição Que samba bom, de Geraldo Pereira, e criou a revista.
Não foi, porém, apenas Aracy Cortes que lançou grandes sambas e sambistas no teatro de revista. Mas, intérpretes de outros sambas alcançaram também sucesso, paralelas a Aracy, ou mesmo depois de a estrela entrar em declínio. Em 1933, por exemplo, quando da montagem de É batata, de Luiz Iglesias e Freire Júnior, da qual a própria estrela era Aracy, estava no palco uma estrela-mirim, apelidada Shirley Temple brasileira, que se chamava Isa Rodrigues.
O comediante Oscarito, oriundo dos circos e que já tinha projeção na revista, sua mulher Margot Louro e a atriz Eva Todor dividiam, com a revelação infantil, as preferências do público. Aracy Cortes cantava Mulher, samba do portelense João da Gente, e Isa Rodrigues, que se tornaria grande caricata, arrebatava o público, cantando com Oscarito, de Ary Barroso, No tabuleiro da baiana, que Carmen Miranda acabara de gravar.
O gênero – designado mais como batuque que samba -, uma apoteose de basilidade, a figura da “baiana” sempre agradando, às vezes a mulher branca fingindo-se de mulata, fora lançado nos palcos por outra sambista de bossa e talento, a bela Deo Maia. Grifo meu.
Esta sim, mulata autêntica, que por longos anos manteve seu sucesso no teatro de revista, sempre com uma multidão de fãs.
Fora do teatro, Deo Maia jamais conseguiu o mesmo êxito.
Ainda por muito tempo, o teatro de revista lançaria sambas e sambistas. As modificações sociais e políticas pelas quais passariam o Brasil não deixariam, porém, de atingi-lo e, ao fim dos anos 50, as coisas já tomavam outros rumos.
No final do ciclo como lançador de sucessos, o teatro de revista tem seu magnífico canto de cisne. Grifo meu.
No Teatro Carlos Gomes, na revista Branco tu é meu, em janeiro de 1952, Linda Baptista lança, de Lupicínio Rodrigues, o samba Vingança.
Praça Tiradentes e o teatro de revista
Centro nervoso dos teatros de revista do Rio de Janeiro, a Praça Tiradentes atraía compositores, músicos e cantores, à procura de emprego para seus talentos, nos muitos palcos iluminados, que faziam a cidade sonhar e cantar.
As casas de espetáculo não somente se multiplicam pelos vários espaços centrais da cidade, como se vão adequando aos novos estratos sociais emergentes, principalmente as classes médias.
Dentro desse contexto, a Praça Tiradentes e seu entorno constituíram-se em um dos privilegiados locais para divulgação e circulação dos artistas – em especial, músicos, compositores e cantores – do período.
Além de dos teatros João Caetano, Recreio, São José, Carlos Gomes, entre outros, onde se concentravam aqueles profissionais, bares e leiterias também representavam lugares de atração e de encontro para os que buscavam na praça uma oportunidade para exercer profissionalmente seus talentos.
Os mais procurados eram a Leiteria Dom Pedro II e o Café Carlos Gomes, onde hoje existe o Café Thalia, pontos de reunião de compositores como Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Wilson Batista, Henrique de Almeida, Roberto Martins, Bidê, Marçal, Jorge Faraj, Ataulfo Alves, Antonio Almeida e tantos outros.
Sabiam eles que, a qualquer momento, poderia surgir a chance de um trabalho ser aproveitado em uma das muitas revistas que eram encenadas nos teatros da praça. Custódio Mesquita, Ary Barroso, Sinhô, André Filho, Francisco Matoso já tinham se consagrado por ali e de repente a sorte poderia aparecer.
No caso de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, jamais conseguiram participar das revistas, mas acabaram por se encontrar nos bares da praça e formar uma das mais importantes parcerias da música popular brasileira.
A maioria dos cantores e compositores “ainda do time de aspirantes” frequentava a Praça Tiradentes, uma espécie de vestibular.
Depois de famosos e ganhando dinheiro para pagar elegantes alfaiates, já bem-sucedidos, transferiam-se para o Café Nice ou para o Café Papagaio, ao lado da conceituada Confeitaria Colombo.
Enquanto isso não acontecia, a solução era enfrentar as xícaras de café com leite nos botequins da Praça Tiradentes, compor os sambas em suas mesas, com tampo de mármore e pé de ferro, e aguardar que o sucesso os viesse resgatar dali, ou que o próprio teatro de revista se encarregasse de os fazer famosos.
Fonte: História do Samba (fascículos) - Editora Globo.








quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Banda Portugal na Praça Onze na masemba, virou lundum, que virou maxixe, donde nasceu o SAMBA - 5 - autor : Jorge Eduardo Fontes Garcia.


Banda Portugal na Praça Onze, fundada em 26 de agosto de 1921, com
Com o nome Sociedade Nova Banda de Música da Colina Portuguesa.
Passou a usar o nome que a consagrou em 5 de agosto de 1925.


Nessa publicação se falava da Portela, do Cordão da Bola Preta, e do Clube dos Embaixadores, “ o grêmio azul e amarelo, que ficava numa sobre loja na Cinelândia, era o Carnaval em ação, como hoje não se vê mais.
Uma pena.
Certo dia estava eu com meu pai já em um colossal engarrafamento quando ficamos estacionados em frente o sobrado onde estava instalada a Banda Portugal.
Nisso passou em frente de nosso automóvel uma senhora bem vestida, coberta de ouro, em direção à porta da agremiação.
Meu pai, um luso descendente muito brincalhão, além de ser um homem bonito e elegante, imitando um português, falou:
“ Ó patrícia vais sacudir os ossos”.
Ao que a dama respondeu sorrindo:
“ Vou. Vamos ó bonitão”, fazendo um gesto de dança.
Meu pai riu, e disse que ficava para a próxima, arrancando com o carro.
Algum tempo depois, estávamos nos num engarrafamento a frente da Banda Portugal, só que, também, estava meu tio e padrinho de Crisma, João Pedro Giordani.
Meu tio se virou e falou:
“ China, olha lá a sua tia”.
Por obra do acaso e para meu espanto era a mesma patrícia com quem meu pai havia bólido semanas antes sentada próximo da janela
Eu chamei atenção de meu pai ao volante, explicamos o acontecido a meu tio, e caímos na gargalhada.
 Eu nunca esqueci esses fatos.
Como é engraçada a memória de menino, pois não???
E é essa a minha lembrança da Praça Onze berço do Samba e de lindas canções.
Eu nunca esqueci esses fatos.
Como é engraçada a memória de menino, pois não???
E é essa a minha lembrança da Praça Onze berço do Samba e de lindas canções.

“Engolida pela Avenida Presidente Vargas, a Praça 11 de Junho diminuiu de tamanho, passando a ser um local de apresentações regulares de espetáculos de circo”, mas antes de tal fato acontecer, aconteceram as músicas:
Praça Onze = Composição: Herivelto Martins e Grande Otelo ·
Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai
Chora o tamborim
Chora o morro inteiro
Favela, Salgueiro
Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai
Adeus, minha Praça Onze, adeus
Já sabemos que vais desaparecer
Leva contigo a nossa recordação
Mas ficarás eternamente em nosso coração
E algum dia nova praça nós teremos
E o teu passado cantaremos
Anos mais tarde, Chico Anysio e João Roberto Kelly homenagearam a Praça Onze no "Rancho da Praça Onze":
Esta é a Praça Onze tão querida
Do carnaval a própria vida
Tudo é sempre carnaval
Vamos ver desta Praça a poesia
E sempre em tom de alegria
Fazê-la internacional
A Praça existe alegre ou triste
Em nossa imaginação
A Praça é nossa e como é nossa
No Rio quatrocentão
Este é o meu Rio boa praça
Simbolizando nesta Praça
Tantas praças que ele tem
Vamos da Zona Norte à Zona Sul
Deixar a vida toda azul
Mostrar da vida o que faz bem
Praça Onze, Praça Onze

A minha homenagem é esse escrito que revela que eu jamais esqueci da nossa Praça 11 tão querida e berço do Samba e de lindas canções.


Jorge Eduardo Fontes Garcia


São Paulo - 27 de janeiro de 2016

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A Kananga do Japão na nossa Praça 11 tão querida na masemba, virou lundum, que virou maxixe, donde nasceu o SAMBA - 4

https://youtu.be/dcVpL-aBR0g podemos encontrar o chorinho KANANGA DO JAPÃO de autoria de Sinhô (José Barbosa da Silva), que foi pianista da Casa, que o pia – não consigo saber o nome- sei que era pintor, ajudou a fundar. Postado por Luciano Hortencio

Segundo consta: A primeira gafieira brasileira, segundo o pesquisador Agostinho Sei-xas, surgiu no séc. XIX e foi instalada à rua da Alfândega, 327, centro do Rio de Janeiro, por D. Francisca Pacheco da Silva. Chamada de “Sala de Danças”, tinha entrada paga à porta e funcionou de 1847 a 1878.
De Elton Medeiros , no Rio de Janeiro, verão de 2005.

No mesmo artigo:
“Como aquela, outras “salas de danças” permaneceram até mesmo depois do aparecimento do maior recreativista de todos os tempos, o criativo Júlio Simões – fundador e proprietário do Kananga do Japão, em 1914 e do Elite Clube em 1930, este ainda hoje existente na Praça da República.
Mas se Júlio Simões imprimiu àqueles bailes de entrada paga – mais tarde chamados de gafieira pelo jornalista Romeu Areda – características como comportamento, trajes, tipo de conjunto musical etc, foi o músico Raul de Barros o responsável pela reformulação desses redutos, fazendo com que surgissem as médias e grandes orquestras e, com elas, um salto de qualidade nos arranjos musicais e uma imensa variedade de gêneros no repertório”.


Esse senhor acima citado escreveu em 1 de outubro de 2010, no INTERLIGEO - http://aiml.blogspot.com.br/2010/10/do-elite-do-julio.html, o seguinte artigo intitulado “ Do Elite do Júlio” que versava
sobre os clubes de danças do Rio de Janeiro, vamos a ele:

Do Elite do Júlio
Há alguns anos minha avó dizia que a novela de Tzuka Yamazaki na TV Manchete, Kananga do Japão, tinha muita coisa errada conforme o testemunho da época que ela dava. No começo da novela parecia mesmo que a coisa ia para uma direção do tipo "Malandros, Perus e Bacanaços" de João Antônio, mas com o tempo os personagens se humanizaram e, então, minha avó já quase no fim da novela dizia com satisfação: "esses personagens existiram mesmo!"
“ Talvez esse testemunho não tivesse valia se minha avó, Zulmira Simões Ciconha, não fosse filha de Julio Simões. Sim, o célebre Julio Simões que fundou a Kananga do Japão e depois o Elite Club”.
“ [ seu Julio] Nascido em Buenos Aires e registrado no Brasil, filho de imigrantes italianos, trajava-se de maneira impecável com ternos brancos de puro linho e suas gravatas de pura seda”.
“A Sociedade Familiar Dançante e Carnavalesca Kananga do Japão fora criada a partir de um rancho carnavalesco, em 1911, na Praça Onze”.
"A Kananga acolheu em suas festas músicos populares muito conhecidos na época, como Sinhô (José Barbosa da Silva), também chamado de Rei do Samba, J. Bulhões, Manuel da Harmonia, Pixinguinha e João da Baiana, que fora o seu diretor de harmonia na fase de rancho”.
“Foi lá que Júlio Simões se inspirou para criar, em 1930, a primeira gafieira do Brasil, a Elite, no Campo de Santana”.
“Conhecimento não lhe faltava, pois, durante muitos anos, Júlio desempenhara a função de fiscal de salão da Kananga”.
“ Como todas as instituições populares do gênero, a Kananga do Japão tinha o seu padroeiro: São Jorge, o santo predileto das camadas mais baixas da população carioca. O seu dia, 23 de abril, era comemorado pela casa desde as primeiras horas da manhã, quando a imagem do santo era retirada do salão e conduzida para a igreja de São Jorge, a cerca de um quilômetro de distância”.
“ Em 1926, a madrinha foi Elisete Cardoso, que teve de contar com a ajuda de outras pessoas, pois a imagem tinha quase o dobro de seu peso. Após a missa, todos voltaram para a sede da Kananga, onde almoçaram e lá permaneceram toda a tarde em clima de festa." Assim Sérgio Cabral descreve no livro "No Tempo da Tia Ciata", essa época de inícios”.
Na época da novela da TV Manchete se falou muito no pai do grande historiador do carnaval, critico, ator, escritor, produtor, sambista da Velha Guarda, o sempre jovial Haroldo Costa (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1930), em relação a Kananga do Japão, mas agora não consigo descobrir o porquê, de que se tratava.
Mas, fica aqui o registro de uma Agremiação na nossa Praça 11 tão querida, a
Kananga do Japão

Jorge Eduardo Fontes Garcia

São Paulo, 27/01/2016

100 anos de Pelo telefone na masemba, virou lundum, que virou maxixe, donde nasceu o SAMBA - 3





100 anos de Pelo telephone

Pelo Telefone é considerado o primeiro samba a ser gravado no Brasil segundo a maioria dos autores, a partir dos registros existentes na Biblioteca Nacional”.
“Foi concebido em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Praça Onze. A melodia, originalmente, intitulava-se Roceiro e foi uma criação coletiva, com participação de João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Hilário Jovino Ferreira e Sinhô”.
Gravado na Casa Edison* através do selo Odeon Records, na voz de Bahiano.
Lançado em 20 de janeiro de 1917.
A Composição é de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, conhecido como Donga, nascido no Rio de Janeiro, 5 de abril de 1890 e falecido na mesma cidade em 25 de agosto de 1974, com 84 anos.
Mais, depois, o próprio Donga dividiu o credito com o jornalista Mauro de Almeida.
Mauro de Almeida (Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 1882 — Rio de Janeiro, 19 de julho de 1956) foi um teatrólogo, jornalista e compositor brasileiro.
Começou a carreira de jornalista na redação de A Folha do Dia, do Rio de Janeiro, como repórter policial e cronista carnavalesco.
Como compositor, entrou para a história da música popular brasileira por ter escrito em coautoria com Donga a letra de Pelo Telefone, oficialmente o primeiro samba gravado. Em 1918 compôs com Pixinguinha e Donga o samba O malhador, que foi interpretado por Baiano e gravado na gravadora Odeon.
Escreveu diversas peças de teatro, entre as quais Presidente antes de nascer, Adeus, Não lhe pague, Amor e modas, Viúva alegre, Com a corda no pescoço, Desarvorada do amor, Do cruzeiro ao cruzeiro, Cozinheira grã- fina, Decadência e Sempre chorada, algumas feitas em parceria com Luís Rocha e Cardoso de Meneses.
Foi sócio fundador da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), em 1917.

Mauro de Almeida  é colaborador na letra de O Roceiro, da parte que citava o telefone, que estava ganhado espaço no Distrito Federal/Rio de Janeiro, letra esta que foi apresentada no Cine-Theatro Velo e para a imprensa, em 1916, e também, nas modificações feitas por Donga para registar “ o Pelo Telefone”.
Concluindo: Graças ao êxito de O Roceiro, foi que o experto Donga a registrou, com algumas poucas modificações de Mauro de Almeida, na Biblioteca Nacional e em Cartório no final de 1916.
E assim entraram para a História do primeiro samba gravado no Brasil.
“ Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, nos anos 60, Donga daria outra versão (dilatando cada vez mais a lenda): a de que os autores da paródia eram os repórteres e que a letra fora mudada para "evitar complicações com as autoridades". Fonte: http://www.brasileirinho.mus.br/artigos/pelotelefone.html, por Marcelo Xavier
Num artigo de “ de fundo do Jornal do Brasil de 1917, indicando a co-autoria de João da Mata, Germano, Tia Ciata e Hilário”.
Foi composto num sarau de Tia Ciata, numa roda de partido-alto, portanto...
 “Mauro, em artigos de jornal, dizia que não havia motivos originais em "Pelo Telefone". O seu papel na criação era catalisar temas que flanavam pelas ruas, como os personagens de João do Rio. À época, o célebre "Peru dos Pés Frios" (como era conhecido) dizia que apenas acomodou os versos para a música que Donga havia lhe apresentado. "Tirei-os de trovas populares", revelou, pouco tempo antes de morrer. Alguns especialistas indicam que o refrão "ah, se a rolinha, sinhô, sinhô" seria um típico tema do Norte”, ou seja, “ de acordo com Bernardo Alves, "o Samba pernambucano aproveitado em 'Pelo Telefone'" tinha como letra original "Olha a rolinha/ Doce, doce/ Mimosa flor/ Doce, doce/ Presa no laço/ Doce, doce/ Do nosso amor/ Doce, doce." (in: A Pré-História do Samba, 2002, págs. 67-8).
“ Após o sucesso no Carnaval daquele ano, um jornal ainda publicou uma nova letra para "Pelo Telefone", dessa vez criticando tal usurpação de seu verdadeiro autor: "Pelo telefone/ A minha boa gente/ Mandou-me avisar/ Que o meu bom arranjo/ Era oferecido/ Para se cantar/ Ai, ai, ai, leva a mão à consciência, meu bem/ Ai, ai, ai por que tanta presença, meu bem/ Ó que caradura dizer na roda/ Que o arranjo é teu/ É do bom Hilário e da Velha Ciata/ Que o bom Sinhô escreveu/ Tomara que tu apanhes/ Pra não tornar a fazer isso/ Escrever o que é dos outros/ Sem olhar o compromisso." Fonte: http://www.brasileirinho.mus.br/artigos/pelotelefone.html , por Marcelo Xavier

Letra de Pelo Telefone:

O chefe da folia
Pelo telefone manda me avisar
Que com alegria
Não se questione para se brincar

Ai, ai, ai
É deixar mágoas pra trás, ó rapaz
Ai, ai, ai
Fica triste se és capaz e verás

Tomara que tu apanhe
Pra não tornar fazer isso
Tirar amores dos outros
Depois fazer teu feitiço

Ai, se a rolinha, sinhô, sinhô
Se embaraçou, sinhô, sinhô
É que a avezinha, sinhô, sinhô
Nunca sambou, sinhô, sinhô
Porque este samba, sinhô, sinhô
De arrepiar, sinhô, sinhô
Põe perna bamba, sinhô, sinhô
Mas faz gozar, sinhô, sinhô

O peru me disse
Se o morcego visse
Não fazer tolice
Que eu então saísse
Dessa esquisitice
De disse-não-disse

Ah! ah! ah!
Aí está o canto ideal, triunfal
Ai, ai, ai
Viva o nosso carnaval sem rival

Se quem tira o amor dos outros
Por deus fosse castigado
O mundo estava vazio
E o inferno habitado

Queres ou não, sinhô, sinhô
Vir pro cordão, sinhô, sinhô
É ser folião, sinhô, sinhô
De coração, sinhô, sinhô
Porque este samba, sinhô, sinhô
De arrepiar, sinhô, sinhô
Põe perna bamba, sinhô, sinhô
Mas faz gozar, sinhô, sinhô

Quem for bom de gosto
Mostre-se disposto
Não procure encosto
Tenha o riso posto
Faça alegre o rosto
Nada de desgosto

Ai, ai, ai
Dança o samba
Com calor, meu amor
Ai, ai, ai
Pois quem dança
Não tem dor nem calor

“ E a polêmica não acaba aqui. A própria letra também é uma fonte de lendas que começa na sua concepção até trechos meramente paródicos que a tradição cuidaria de incorporar à música. Sabe-se que a origem dos primeiros versos é histórica. Tudo teria começado quando dois repórteres do jornal A Noite, Castelar de Carvalho e Eustáquio Alves, resolveram instalar, de brincadeira, uma roleta na entrada do vespertino, tentando provar que o Chefe da Polícia do Rio, Aurelino Leal, fazia vistas grossas à prevaricação na cidade, apesar do pretenso combate prometido. Por pelo menos dois dias, a redação se transformou na capital da jogatina.
Foi quando o jornal de Irineu Marinho publicou matéria denunciando a suposta negligência da polícia, tentando desmoralizar Aurelino. Como as diligências eram informadas por via telefônica, a história correu solta. E a letra ficou assim:
"O Chefe da polícia/ Pelo telefone/ Mandou me avisar/ Que na Carioca/ Há uma roleta/ Para se jogar..."
Contudo, Donga disse, tempos depois, que a letra original era
"O Chefe da folia/ Pelo telefone/ Manda me avisar/ Que com alegria/ Não se questione/ Para se brincar."
Não é o que ele canta ao receber das mãos de Hebe Camargo, ao ledo de Chico Buarque, um troféu como podemos ver no:


 https://youtu.be/X99_DMzHPNg 

Mais pelo sim, ou pelo não, nesse ano celebramos os 100 anos, o centenário, da gravação de “ Pelo Telephone”, e ponto final no assunto.

Donga organizou com Pixinguinha a Orquestra Típica Donga-Pixinguinha.
Em 1919, ao lado de Pixinguinha e outros seis músicos, integrou, como violonista, o grupo Oito Batutas, que excursionou pela Europa em 1922.


Graças aos subsídios proporcionados por Arnaldo Guinle e o empresário Roberto Marinho, do jornal O Globo, que eles puderam se apresentar Brasil afora e no exterior.

Em 1926 integrou a banda Carlito Jazz.
Em 1940 Donga gravou nove composições (entre sambas, toadas, macumbas e lundus) do disco Native Brazilian Music, organizado por dois maestros: o norte-americano Leopold Stokowski e o brasileiro Villa-Lobos, lançado nos Estados Unidos pela Columbia.
No final dos anos 50 voltou a se apresentar com o grupo Velha Guarda, em shows organizados por Almirante. Enviuvou em 1951, casou-se novamente em 1953 e foi morar no bairro de Aldeia Campista, para onde se retirara como oficial de justiça aposentado. Doente e quase cego, viveu seus últimos dias na Retiro dos Artistas.
Está sepultado no Cemitério São João Batista.
Álbuns
1928. Não diga não / Carinhoso: Gravadora Parlophon
1928. Teus beijos: Gravadora Parlophon
1928  Lamento/Amigo do povo: Gravadora Parlophon
1929  O meu tipo: Gravadora Parlophon
1938  O corta jaca / Pelo telefone: Gravadora Odeon

Casa Edison foi uma das primeiras gravadoras brasileiras, fundada em 1900 por Fred Figner ou Frederico Figner, um emigrante tcheco de origem judaica e honrado, post-mortem, com o merecido título de “o mais brasileiro de todos os estrangeiros”, no Rio de Janeiro.
Importava e revendia cilindros fonográficos (utilizados nos fonógrafos de Thomas Edison) e discos (utilizados nos gramofones de Emil Berliner).
Em 1902, lança o que é considerada a primeira música brasileira gravada no país, o lundu ‘Isto É Bom’ do compositor Xisto Bahia na voz de Bahiano.
Desde a fundação, passa a ser representante da Odeon Records administrando os vários selos que a empresa alemã possuía e, a partir de 1912, também a fábrica que aquela companhia abriu no Rio de Janeiro naquele ano.
Em 1926, a gravadora perderia a representação da Odeon e, no ano seguinte, passaria a gravar pelo selo Parlophone até que, em 1932, sairia definitivamente da indústria fonográfica, passando a operar com máquinas de escrever, geladeiras e mimeógrafos até encerrar suas atividades em 1960.


Bahiano, no civil Manuel Pedro dos Santos, nascido em Santo Amaro da Purificação, Bahia, no dia 5 de dezembro de 1870 e falecido no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1944, foi pioneiro nas gravações fonográficas na Casa Edison, com o lundu de Xisto Bahia, Isto É Bom, primeiro disco para gramofone gravado no Brasil.
Dentre os gêneros mais abundantes em sua discografia estavam as modinhas e os lundus.
Gravou, em janeiro de 1917, o samba Pelo Telefone considerado a primeira gravação fonográfica de um samba.
Era conterrâneo e amigo de Tia Ciata.





Os Grandes do Samba
Da esquerda para a direita:
Cascata, Donga, Ataulfo Alves, Pixinguinha, João da Baiana, Ismael Silva,
Alfredinho do Flautim.


A masemba, virou lundum, que virou maxixe, donde nasceu o SAMBA - 2




Continuação:
A Voz do Morro:   
Eu sou o samba
A voz do morro sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações brasileiros
Salve o samba, queremos samba
Quem está pedindo é a voz do povo de um país
Salve o samba, queremos samba
Essa melodia de um Brasil feliz
Essa maravilha cima é de Zé Kéti, nome artístico de José Flores de Jesus, nascido no Rio de Janeiro, no Bairro de Inhaúma, em 6 de outubro de 192.
Na mesma cidade morreu de falência múltipla dos órgãos aos 78 anos em 14 de novembro de 1999.
A Voz do Morro, também, foi o nome de um conjunto formado na década de 1960, por Zé Kéti, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Zé Cruz e Oscar Bigode.

Esse primor narra suscintamente a História do Samba que teve início na Cidade Nova.
O que era a Cidade Nova?
Simplificando as informações:
“ O nome "Cidade Nova" tem registros que remontam ao período do reinado de D. João VI. Até o início do século XIX, a região era um alagadiço que servia de rota de passagem entre o Centro e as zonas rurais da Tijuca e São Cristóvão. Com os aterros feitos com a intenção de melhorar esta travessia, surgiu o projeto de impulsionar o crescimento da cidade para a área, vindo daí o nome”.
Ou
Em tempos passados, a região ou bairro da Cidade Nova era conhecida como Mangue, por ter sido um alagadiço pantanoso com vegetação de manguezal. A região também ficou conhecida como "Aterrado", devido à um caminho feito sobre aterro, ainda no tempo de Dom João VI para ligar o centro da cidade ao Paço Real de São Cristóvão, atual Museu da Quinta da Boa Vista. A região da atual Cidade é área compreendida entre os antigos Manguezais da Gamboa Grande indo até o extinto Saco de São Diogo ou Saco de São Cristóvão. Para se situar, o Saco de São Cristóvão era um grande braço de mar, cujas aguas chegavam ante o atual encontro das Avenidas Francisco Bicalho e Presidente Vargas.
Nesta região, no início do Século 19, uma parte da mesma foi aterrada, dando surgimento ao chamado "Campo de Marte", utilizado para manobras militares e exercícios de tiros de tropas da Coroa.
A região ficou conhecida como Aterrado no Século 19 devido ao "Caminho do Aterrado ou Caminho das Lanternas", construído no tempo de D. João VI, para trafego de carruagens da família Real ruma ao Palácio de São Cristóvão.
Este caminho também aberto sobre aterro, viria a ser a Rua Senador Euzébio (depois Rua São Pedro da Cidade Nova), que passava pela "Ponte dos Marinheiros", ponte esta que existia onde hoje existe um cruzamento de grandes viadutos na junção das Avenidas Presidentes Vargas e Francisco Bicalho.
Veja algumas cenas que mostram a evolução urbana e os aterros das áreas adjacentes ao antigo Saco de São Cristóvão e Manguezal de São Diogo. Sobre o manguezal hoje situa-se a Cidade Nova.
Na metade do Século 19, a área sofreu grande impulso, quando o Barão de Mauá construiu e instalou na Senador Eusébio (depois Rua São Pedro da Cidade Nova), em 1851, o antigo Gasômetro ou Fábrica de Gás. O projeto do gasômetro era de um engenheiro inglês chamado Guilherme Bragge.
Em 1857 o mesmo Barão de Mauá, também construiu sob regime de administração o Canal do Mangue, drenando e saneando as águas que se espalhavam pelo local.
Este canal foi construído substituindo uma vala que existia no local, entre as Ruas Visconde de Itaúna e Senador Eusébio.
A Rua São Pedro da Cidade Nova (antiga Senador Eusébio) deixou de existir com a abertura da Avenida Presidente Vargas na década de 1940, Século 20, quando esta rua e a Visconde de Itabuna, uma outra rua paralela que ficava do outro lado do Canal do Mangue se fundiram e passaram a se chamar Av. Presidente Vargas.
Entretanto, a calçada da Av. Presidente Vargas do lado do Gasômetro, seria a antiga calçada da extinta Senador Eusébio ou Rua São Pedro da Cidade Nova.
Até o ano de 1895, ainda existiam pântanos na área onde hoje existe a Estação do Metrô do Estácio, área em frente ao Centro de Convenções Sul América, Prédios Prefeitura e indo até o edifício do Tele Porto na Rua Visconde de Duprat. Foi nesta época que estas áreas foram aterradas com terras que vieram do desmonte do Morro do Senado. Em função destes aterros, surgiram as ruas Pinto de Azevedo, Pereira Franco, Machado Coelho (antiga Rua dos Bondes), Visconde de Duprat entre outras.
Na década de 1940 inúmeras demolições ocorreram na área para a abertura da grandiosa e ampla Av. Presidente Vargas. Se veio o chamado "progresso" para a cidade, a avenida transformou a Cidade Nova em um bairro de passagem que entrou em total decadência passando a ser ocupado por cortiços e zonas baixo meretrício”.

Outro:
“ A Cidade Nova passou a ser caracteristicamente um bairro proletário, de pequenas casas operárias. Nele, localizava-se a antiga praça 11 de Julho, que seria destruída com as obras de abertura da Avenida Presidente Vargas. Entretanto, parte da Cidade Nova manteve a denominação de Praça Onze, em referência ao antigo logradouro, apesar disso, curiosamente, a Praça Onze não faz parte do bairro da Cidade Nova, fazendo parte do bairro do Centro, pois fica depois do Viaduto 31 de Março, divisa oficial dos dois bairros”.

“O "Largo do Rocio Pequeno" tornou-se a Praça 11 de junho, data da Batalha do Riachuelo, o Combate Naval do Riachuelo culminou com a derrota dos paraguaios, representando o fim da primeira fase da guerra, onde se distinguiu Francisco Manuel Barroso da Silva, Barão do Amazonas - em homenagem à nau capitânia que comandava na batalha do Riachuelo-  o Almirante Barroso,  era delimitada pelas ruas de Santana (a leste), Marquês de Pombal (a oeste), Senador Euzébio (ao norte) e Visconde de Itaúna (ao sul)”.
“ As etnias mais populares no entorno da Praça Onze eram os negros (na maioria oriundos da Bahia), seguidos pelos judeus de várias procedências, tanto que por ali morou e trabalhou Adolpho Bloch (Avram Yossievitch Bloch) junto com a família, que em 1923 comprou uma pequena impressora manual e começou rodando folhas numeradas para o ilegal Jogo do Bicho”.
“ Com a Abolição, os libertos se instalaram nas precárias "casas de cômodos" tendo como centro público das atividades a Praça 11 de Junho”.
Foi por causa da superlotação das casas ao redor da Praça 11, os soldados que participaram da Guerra de Canudos subiram as encostas do Morro da Favela, e lá construíram seus casebres, e de onde surgiu a terminologia “ Favela”.
Portanto, a Praça 11 era “ o reduto por excelência dos negros cariocas”.

E FOI ONDE NASCEU O SAMBA.



Na casa da Mãe de Santo e quituteira baiana dona Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata.
Tia Ciata, filha de Oxum, nasceu na terra dos Velosos (Maria Betânia e Caetano), ou seja, em Santo Amaro da Purificação em 1854, sendo iniciada no candomblé em Salvador por Bangboshê Obitikô, nome civil Rodolfo Martins de Andrade, um babalawo africano.
Babalawo (em yoruba: bàbáláwo pronúncia babalauo) é o nome dado aos sacerdotes exclusivos de Orunmilá-Ifá do Culto de Ifá na religião yoruba, das culturas Jeje e Nagô. Estes não necessariamente entram em transe, sua função principal é a iniciação de outros babalawos, a preservação do segredo e transmissão do conhecimento do Culto de Ifá para os iniciados”.

Tia Ciata mudou-se para o Rio de Janeiro com 22 anos, em 1876, por causa da perseguição e fortíssima repressão policial a sua crença, e com outras Irmãs de Santo foi morar na “ região da Cidade Nova, do Catumbi, Gamboa, Santo Cristo e arredores”.
Embuchada por Noberto da Rocha Guimarães um companheiro que não deu certo, tiveram uma filha de nome Isabel.
Para sustentar a Isabel, nome da Princesa que assinou a Lei Aurea, a nobre Tia Ciata, vestida com as vestes tradicionais das baianas, foi trabalhar como quituteira na Rua Sete de Setembro, local onde seu “tabuleiro ficou famoso por ser farto, repleto de quitutes, de bolos e manjares, tanto que era frequentado por transeuntes de todas as classes sociais”.
No Rio se tornou “ A Mãe Pequena, a Iyakekerê, a segunda pessoa mais importante em um terreiro de candomblé, que na ausência da ialorixá ou do babalorixá, assume o comando do terreiro da Casa do babalorixá João Alabá, a primeira casa de candomblé no Distrito Federal, um terreiro de Candomblé na rua Barão de São Félix, na Gamboa”.
Boa pessoa, encontrou em João Batista da Silva, um negro bem-sucedido, o companheiro de sua vida, tanto que tiveram 14 filhos, e com quem foi morar na Praça 11.
Ali conquistou uma boa reputação, tanto que ela se conta essa História:   
“ Normalmente, a polícia perseguia os sambistas, mas Tia Ciata era famosa por seu lado curandeiro e foi justamente um investigador e chofer de polícia, conhecido como Bispo que proporcionou a ela uma interessante história envolvendo o presidente da República, Wenceslau Brás. O presidente estava adoentado em virtude de uma ferida na perna que os médicos não conseguiam curar e este investigador então disse ao Presidente que Tia Ciata poderia curá-lo. Feito isto, foi falar com ela, dizendo:
"Ele é um homem, um senhor do bem. Ele é o criador desse negócio da Lei de um dia não trabalha..."
E ela respondeu:
"Quem precisa de caridade que venha cá."
Ela então incorporou um Orixá que disse aos presentes haver cura para a tal ferida e recomendou a Wenceslau Brás que fizesse uma pasta feita de ervas que deveria ser colocada por três dias seguidos.
O Presidente ficou bom e em troca ofereceu a realização de qualquer pedido. Tia Ciata respondeu que não precisava de nada, mas que seu marido sim, pedindo para o Presidente um trabalho no serviço público, "pois minha família é numerosa", explicou ela.
Fim da História.
“ Em 1910, morreu o respeitado João Batista da Silva, mas Tia Ciata continuou a mesma recebendo em sua casa, organizando os famosos pagodes, que eram festas dançantes, regadas a música da melhor qualidade e claro seus quitutes”. “Tia Ciata cuidava para que a comida estivesse sempre quente e saborosa e o samba nunca parasse”.
Mestra no Samba do partido-alto, portanto uma das conhecedoras dos segredos do samba-dança mais antigo, tanto que foi reconhecida como grande ‘partideira’.
Em sua casa na Praça 11 se reuniram os Três Grandes, Donga, Sinhô e João da Baiana, e com isso sua casa “é uma referência na história do samba, do candomblé e da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”.
A “ Deixa Falar” é considerada a primeira escola de samba do Brasil, nascida no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, que  para muitos era só um Bloco de Carnaval, depois dele ou dela vieram O Conjunto Oswaldo Cruz, do Bairro Osvaldo Cruz, hoje o mui querido Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, e o Bloco Estação Primeira, que hoje é a tradicional Estação Primeira de Mangueira ( Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira), e todos eles “nos primeiros anos de desfile das escolas de samba, consideravam que era "obrigatório" passar diante da Casa de Tia Ciata, onde foi criado "Pelo Telefone", o primeiro samba gravado em disco, assinado por Donga e Mauro de Almeida, na voz do cantor Bahiano, nascido também em Santo Amaro da Purificação.”
“Com 70 anos completos, Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata, que no seu atestado de óbito, está como Hilária Pereira de Almeida, e numa petição para sócio do Clube Municipal encaminhada por seu filho João Paulo em 1949, este escreve o nome da mãe como Hilária Pereira Ernesto da Silva. Dúvidas documentais sem maior importância, morreu em 1924, mas até hoje é parte fundamental da memória do samba. Curiosamente, existem pouquíssimas imagens de Tia Ciata”.
“Tia Ciata era uma mulher muito respeitada”.