segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

a FRANÇA impôs oneroso termos de paz a Alemanha apos a I Grande Guerra.

A obsessão está no dicionário
Por trás da firmeza no Eurogrupo, há uma história na qual dívida e culpa assombram o inconsciente coletivo
“No idioma alemão, a raiz das duas palavras é a mesma: ‘Schuld’ significa culpa, e ‘Schulden’, dívida” Tobias Hentze Economista
As negociações na Europa para salvar a Grécia de uma dívida apresentaram ao mundo duas figuras emblemáticas. De um lado, desponta o despojado ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis. Do outro, seu sisudo equivalente alemão, Wolfgang Schäuble, reforça todos os estereótipos da dureza germânica — sobretudo quando se trata da política de austeridade transformada na marca registrada da chanceler Angela Merkel. E a chave para entender o porquê de tanta disciplina financeira pode estar no dicionário. Quarta maior economia do mundo e coração da zona do euro, a Alemanha vê dívida e culpa da mesma maneira. No inconsciente alemão, ficar endividado significa ter feito algo tão ruim que é passível de penitência.
— No idioma alemão, a raiz dessas duas palavras é a mesma. “Schuld” significa culpa, e “Schulden”, dívida — disse ao GLOBO o economista Tobias Hentze, do Instituto de Pesquisas Econômicas de Colônia.
À SOMBRA DOS ANOS 1920
O horror à dívida, porém, vai além do léxico. Mais de cem anos após o estouro da I Guerra Mundial, economistas se lembram das marcas deixadas pela República de Weimar na psique do país. Os alemães não se esquecem dos dias de pobreza após a assinatura do Tratado de Versalhes, que formalizou o fim ao conflito em 1919, quando França e Reino Unido impuseram pagamentos draconianos à Alemanha como compensação pela guerra. Os termos de paz exigiam que Berlim fizesse um pagamento inicial às duas potências de US$ 5 bilhões — quase a metade do Produto Interno Bruto (PIB) alemão à época. Seguiram-se meses de descontrole e hiperinflação que, mais tarde, acabaram favorecendo a ascensão do nacionalismo e do Terceiro Reich de Adolph Hitler. De repente, um dólar, que valia quatro marcos, passou a valer quatro trilhões.
— Desde a hiperinflação dos anos 1920, dívidas e preços altos são um pesadelo para os alemães. Por décadas, os alemães estavam contentes com a estabilidade do marco. As taxas de inflação se mantiveram baixas. Como isso ajuda os devedores a pagarem suas dívidas e coloca credores em desvantagem, países com taxas altas de inflação no passado, como Itália e Grécia, têm atitudes diferentes das da Alemanha no quesito dívidas — avaliou Hentze.
Uma geração mais tarde, a derrota de Hitler impôs novo revés aos alemães, que acabaram vendo o país rachado pela Guerra Fria. E como os Estados Unidos precisavam de um aliado forte frente ao comunismo soviético no centro da Europa, a República Federal Alemã, o Oeste capitalista, assistiu nos anos 1950 ao que se chamou de Wirtschaftswunder — o milagre econômico.
— O Plano Marshall foi essencial. As pessoas saíram da guerra muito pobres e tinham que trabalhar muito para comer. Foi quando o governo introduziu o conceito de Soziale Marktwirtschaft, a economia de mercado social, que permitiu incentivos razoáveis às empresas, mas também aos cidadãos e suas famílias — lembrou o economista.
VICIADOS EM ECONOMIZAR
Os alemães começaram a poupar. E apaixonaram-se pela prática. Em julho passado, pesquisa da Associação dos Bancos Alemães indicou que 35% dos alemães entre 18 e 59 anos têm o hábito de guardar até € 100 por mês, e 25% se esforçam para poupar até € 200. O motivo? Nada de construir patrimônio ou fazer compras exorbitantes: 53% pensam em uma emergência — enquanto apenas 1% dos entrevistados contaram que poupam para viajar.
Como a inflação é inimiga dos poupadores, a ideia de reduzir taxas de juros e injetar mais dinheiro na economia, postura adotada recentemente pelo Banco Central Europeu (BCE), é aterradora a ouvidos alemães.
Se guardar é preciso, em Berlim o desapego pelo consumo é tamanho que proliferam nas redes sociais grupos de troca-troca, como o Free Your Stuff (Liberte suas coisas), no Facebook. De roupas a móveis, há de um tudo — para o escambo.





Charge da Primeira Grande Guerra:

Oficial francês impõe onerosos termos de paz a soldado alemão