terça-feira, 28 de julho de 2015

A Quinta da Boa Vista, era o Palácio Imperial que nunca deixou de ser Quinta. Parte II

A Quinta da Boa Vista, era o Palácio Imperial que nunca deixou de ser Quinta.
Parte II



“Salões e Damas do Segundo Reinado”
 de Wanderley Pinho

Vamos usar a obra “Salões e Damas do Segundo Reinado”, de Wanderley Pinho, com ilustrações de J. Wasth Rodrigues, Livraria Martins Editora –São Paulo, 2ª Edição, e “ História das ruas do Rio de Janeiro”, de Brasil Gerson, Editora Souza, Rio de Janeiro, 3 ª Edição / Revista e Aumentada, bem como outras fontes.


“ História das ruas do Rio de Janeiro”
de Brasil Gerson

Dom Pedro I e Dona Leopoldina de Habsburgo tiveram sete filhos, a quarta foi Dona Francisca Carolina Joana Leopoldina Romana Xavier de Paula Micaela Rafaela Gabriela Gonzaga de Bragança, nascida na Quinta da Boa Vista em 2 de agosto de 1824 e que veio a falecer em Paris no dia 27 de março de 1898.
Em 1° de maio de 1843 casou com Francisco Fernando de Orléans, Príncipe de Joinville, filho de Luís Filipe I, Rei dos Franceses, e de Maria Amélia de Bourbon-Sicília, nascida Princesa de Nápoles, embarcando logo a seguir para França a bordo da fragata La Belle Poule, a mesma que transportou sob seu Comando os restos mortais de Napoleão Bonaparte da Ilha de Santa Helena para serem sepultados no Hôtel National des Invalides, Paris.


Dona Francisca
Princesa do Brasil
Princesa de Joinville
Infanta de Portugal

“ Chicá” para os íntimos e "La Belle Françoise", para outros, tornou-se uma das Princesas mais populares de seu tempo não só na França, bem como na Europa, era queridíssima.
Dom Pedro II a chamava de “ Mana Chica” e a “ Mana Chica” estava preocupada com a falta de vontade de seu irmão de exercer plenamente a Liturgia que o cargo exigia, e eu não estou falando aqui do seu Direito Constitucional que era o Poder Moderador, de fiel da balança entre os poderes legislativo e executivo", mas sim das Pompas e Circunstâncias que são a essência da Monarquia, do Regime Monárquico.
Escreve a Princesa dos Franceses a Paulo Barbosa, Mordomo da Casa Imperial, portanto próximo da Casa Imperial:
“ Pobre mano Pedro, ele tem bem precisão de hum amigo ao pé dele como o Senhor. Tudo vai bem mal na Casa. As dividas comessão e dizem já serem grandes, isso por falta de ordem. O mano não dá mais bailes, nem Saraus, não viaja mais. Tudo isso he de mau feito, e, temo q. lhes faça mal ao prestigio que os nossos compatriotas ainda garantão pela monarchia. Se ele nos foge estamos perdidos sem duvida nenhum. Vá para o Rio meu querido Barbosa. Sempre foi e he homem cheio de coração e honra”.


Francisco Fernando Filipe Luís Maria d'Orleans, Príncipe de Joinville.
François-Ferdinand-Philippe-Louis-Marie d'Orléans


Escreveu Dona Francisca:
 “As dividas comessão e dizem já serem grandes” o que talvez justifique, e muito, a sovines de Dom Pedro II, mas que não lhe dava o direito de se deixar levar por ela no que tange as Pompa e Circunstância de que o Regime monárquico se nutre.
No final do livro há a seguinte nota:
 “ Essa carta da Princesa de Joinville a Paulo Barbosa existe em poder de Américo Jacobina Lacombe e foi, como outros documentos, por ele gentilmente comunicada ao autor. Traz a data : - Claremont, 24 de junho de 1875. André Victor que passou pelo Rio de janeiro em 1844 escreveu que o Príncipe de Joinville era muito estimado de Pedro II que “ se lembrava com saudades da alegria do jovem Orléans cuja exuberância e comunicatividade francesa havia enchido o tristonho palácio de São Cristóvão de alegria. Perdera-se o segredo de tal animação com sua partida”. “Salões e Damas do Segundo Reinado”, capitulo “Os paços Imperiais- São Cristóvão e Petrópolis”.
E mais:
“Para o publico a família imperial recolhera-se desde então numa espécie de retiro. A côrte parecia, e o era por certo em grande parte, estranha à vida elegante da capital do país”.  
Dom Pedro II só dava um jantar de gala por ano e assim mesmo em comemoração ao aniversario do Rei de Portugal quando o Embaixador de S.M. Fidelíssima era convidado a mesa imperial em São Cristóvão.


Prinz Albert Wilhelm Heinrich von Preußen
Príncipe da Prússia em uniforme da Marinha
Irmão mais novo do Kaiser Guilherme II da Alemanha.  
Com uma longa carreira como oficial da marinha, Henrique comandou várias missões na Marinha Imperial Alemã e, posteriormente, subiu na carreira até ao ranking de Grande Almirante.

Quando o Príncipe Henrique da Prússia (Alberto Guilherme Henrique) em 1883 passou pelo Rio de Janeiro, Dom Pedro II lhe ofereceu um jantar no qual serviu uma clássica canja e alguns pratos de sua cozinha diária.
Os chargistas deitaram e rolaram e assim foi um espanto generalizado na Corte o tal cardápio, para deleite da oposição a Monarquia.
André Rebouças, o engenheiro militar, baiano, filho de uma escrava alforriada com um alfaiate português, amigo do Conde D’Eu, insuspeito, pois conviveu com o Imperador na visita que esse fez aos campos de batalha da Guerra do Paraguai, foi convidado a verificar as condições do Paço Imperial ( na hoje Praça 15, centro do Rio de Janeiro)  e como nos conta Wanderley Pinho  conforme anotação desse leal servidor da Casa Imperial, “ examinei com o engenheiro Jardim o Paço Imperial, cujo estado de ruina e imundice fica abaixo de toda critica”.
Vejam que isso é um comentário feito por um homem que acompanhou a Família Imperial na sua viagem para o exilio, que com a morte do Imperador entrou em profunda depressão e que acabou, como todo deprimido irremediável, se suicidando no mar de frente a sua casa no Funchal, Ilha da Madeira, onde havia se abrigado depois da Proclamação da Republica.
O Visconde de Taunay (Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay) dá seu testemunho:
“São Cristóvão foi sempre um paço triste e severo: e a morada, não da alegria, mas do dever sereno e vigilante”. (1)
O Conde Eugenio de Robiano, viajante belga, que nos visitou em 1874, citado por Luís Carlos Soares em “ “O "povo de cam" na capital do Brasil: a escravidão urbana no Rio de Janeiro”, que ficou chocado com tantos negros   no Rio de Janeiro, também, se chocou com os hábitos da Família imperial afirmado “le train de maison de la famille imperiale ne répond certes pas à sa haute position”, numa tradução livre “ O trem da casa da família imperial certamente não esta de acordo com sua alta”
O ‘trem ‘ aqui é segundo o Aurélio:
Trem [Do francês/inglês. train.] Substantivo masculino
1 Conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante. 2. Comitiva, séquito. 3. Mobiliário duma casa. 4. Conjunto de objetos apropriados para certos serviços... 5. Carruagem, sege. 6. Vestuário, traje, trajo.
Disse sobre a carruagem de gala de Sua Majestade Imperial:
“Carrosses du siècle dernier”, tradução livre, ‘ carroças do século passado’ isso é o Século XVIII.
“ Não havia variantes nessa apreciação dos hábitos da dinastia”. ( 1)
Enquanto isso verdadeiros palácios eram construídos na Cidade do Rio de Janeiro onde festas deslumbrantes aconteciam.
E o que vamos ver mais adiante.
E A Quinta da Boa Vista, era o Palácio Imperial que nunca deixou de ser Quinta.


Fim da Parte II

Nota: Na corte francesa, D. Francisca logo se tornou uma das princesas mais populares da corte e ers chamada de "La Belle Françoise".
Em 1848 a monarquia foi extinta na França, e os Orléans seguiram para o exílio,e
D. Francisca negociou com vigor com os republicanos a fuga de sua família.
Com dificuldades financeiras, os príncipes de Joinville negociaram as terras catarinenses com a Companhia Colonizadora Alemã, do senador Christian Mathias Schroeder, rico comerciante e dono de alguns navios. Assim nasceu a Colônia Dona Francisca, mais tarde Joinville, atualmente a maior cidade do estado de Santa Catarina.
(Morreu em dificuldades financeiras)
D. Francisca defendia medidas enérgicas contra o crescimento do republicanismo no Brasil.

Em 1864, ela enviou os príncipes Gastão d'Orléans, o conde d'Eu, e Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota para o Brasil, onde se casariam com suas sobrinhas, D. Leopoldina e D. Isabel, respectivamente.