quarta-feira, 13 de maio de 2015

185 G - Conversa- Holanda- Rei, esposa morganática, & emigração protestante.

Rei, esposa morganática, & emigração protestante.

As Casas Reinantes na antiga Europa eram por demais fecundas.
Raros eram os Soberanos que não tinham Herdeiros para seus Tronos.
Um ou outro porque era estéril, ou sua esposa era.
Contudo, havia sempre uma penca de irmãos, de sobrinhos, de onde podiam sacar um novo Herdeiro para a Coroa.
Em alguns casos havia a Tradição da Lei Sálica e como sempre a Historia acabava em Guerras entre os aspirantes ao Trono.
Mais, havia os que eram dados, até por demais, aos prazeres da carne, verdadeiros ‘atletas do sexo’.
Essa condição de garanhão, na linguagem popular, era um grande contrassenso, afinal eles eram Soberanos por Direito Divino segundo a Tradição da Igreja e ela ensina que só se deve ter relações sexuais com o intuito de procriar dentro do casamento realizado no seio da chamada Santa Madre Igreja, mas vamos lá, cada cabeça que tenha a sua sentença.
Um bom exemplo é o nosso Luiz XIV, Rei de França e de Navarra, Majestade Cristianíssima, ‘de la maison de Bourbon de la dynastie capétienne’.
Só uma curiosidade:
Louis Dieudonné, nome que quer dizer ‘o presente de Deus’, era um daqueles que não gostava de tomar banho, e só como medicamento tomou três na vida.
Fagon, seu médico, descreve o resultado do’ tratamento por banho’ que ele receitou para Sua Majestade:
“O paciente passou por tremores, ataque de fúria, movimentos convulsivos...seguidos de erupções, manchas vermelhas e roxas no peito”. Fonte: ‘Journal de la Sante du Roi Louis XIV (1647-1771) de A. d’Aquin, GCFagon, a. Vallot. Paris 1862.
Semivestido ele usava a ‘retrete’ – uma cadeira com pinico- na frente de membros da Família Real, de Monsieur, dos Príncipes de Sangue, dos Duques e dos Altos Dignitários ‘de la Cour à Versailles’, dos médicos, dos serviçais, etc. e tal.
Como sofria de prisão de ventre era fã das lavagens intestinais, nas quais eram utilizadas cânulas e seringas, e as ‘tomava’ na frente do seleto grupo já citado.
Necessidades feitas, um camareiro o limpava por três vezes com paninhos cortados para tal fim, não existia papel higiênico, nem era levado um bidê para Sua Majestade se lavar, donde podemos concluir que não era lá muito higiênico tal ato, e que de cheiroso não tinha nada.  
Além do que Luís de Bourbon-Capeto suava demais, tinha que viver trocando de ‘roupa branca’, pelo menos quatro vezes por dia, por isso, e só por isso, era considerado um homem limpo, pois naquela época se acreditava’ na roupa branca que limpa’.
É claro que já se tinha o perfume, mas não existia o desodorante, donde se conclui que devia ter um cheiro de çeçe que não devia ser ‘bolinho’, alias Luís era alérgico a perfume, detalhes abaixo.
Diariamente cinco médicos vinham ver o Rei, foram eles Jacques Cousinot, François Vautier, Antoine Vallot, Antoine de Aquino, Guy-Crescent Fagon até a morte do rei, todos usando e abusando das sangrias e das lavagens intestinais, as purgas com os terríveis clisteres, 5.000 em 50 anos de vida, pois era purgado todos os dias.
Com seu ânus sangrava devido as hemorroidas, vivia usando emplastros ou pomadas para evitar maiores sangramentos.



Uma purga no século XVIII.
Museu Nacional do Azulejo, Lisboa

Luís tinha um forte mau hálito por causa de seus problemas dentários, tanto que para falar com suas amantes, ele colocava um lenço perfumado na boca, mas como era alérgico a perfume, só suportava o de Flor de Laranjeiras, isso segundo seu dentista Dubois.
Luís teve e tinha:
1-       Varíola em 1647.
2-      Problemas estomacais e disenteria, doenças dolorosas e crônicas, devido a seus hábitos alimentares.
3-      Tumores: um no mamilo direito cauterizado em janeiro 1653.
4-      Gonorreia desde da mocidade: mantido em segredo.
5-      Vapores na cabeça (forte dor de cabeça) e dor nas costas – coluna-  frequente.
6-      Espinhas por toda a face e outras partes do corpo.
7-      Gangrena, que iniciou nos dedos do pé, já perto da morte.
8-      Febres.
9-       Dor de dente, os seus dentes lado superior esquerdo foram cauterizados várias vezes a picos de fogo (para suportá-lo líquidos eram introduzidos através do nariz).
10-   Fístula anal que será operada pelo cirurgião Felix, em novembro 1686.
11-   Problemas urinários: cálculos renais o que fazia com que ele tivesse ​uma micção dolorosa.
12-   Gota: ataques insuportáveis no ​​pé direito e no tornozelo esquerdo, considerada por todos como “ uma verdadeira tortura”.

Luís XIV sofria tanto das hemorroidas que em pleno século XVIII sofreu uma intervenção cirúrgica para extirpá-las.
Essa operação era tão delicada que o Clero de toda a França foi convocado a rezar para o seu bom sucesso.
Não fiquem surpresos, mas aquele que se igualava ao SOL, pedia as pias senhoras, ou senhoritas, aos padres e aos nem sempre austeros monges, que intercedesse ao Deus dos Cristãos, dos Judeus e dos Huguenotes, esse último povo e pessoas aquém tanto odiava, que o salvasse de todos os males.
Madame de Maintenon, esposa morganática do Monarca, escreveu aos responsáveis em Saint-Cyr da Maison Royale de Saint-Louis, uma Instituição fundada por Louis Dieudonné a seu pedido para educar filhas de nobres e que era dirigida por freiras, apesar de a Escola não ser convento, o seguinte:
« ...mas o Rei se portou muito bem é muito corajoso’.
Como podemos ver se salvou, mas eu acredito que o ‘cheirim’ continuou, pois, a descrição de sua morte prova o que agora escrevo.
Mas apesar disso TUDO, Sua Majestade era o que chamamos de ‘ o garanhão’, não podia ver uma nova jovem da nobreza na Corte que já arrastava, como um bom ‘coq gauloise’, um galo gaulês, as suas asas.
Amante teve várias, a Grande Historia fala delas.
Filho bastardo os teve muitos e a todos legitimou.
E foi por causa “des les enfants légitimes du roi de France” que a já citada, Françoise d’Aubigné, viúva do poeta burlesco, o paralitico Paul Scarron, com quem casou pobre e aos 16 anos por sobrevivência, e ficou casada de 1652 a 1660, nascida em 27 de novembro 1635, na prisão de Niort, onde seu pai foi preso por ordem do Cardeal-Duque de Richelieu.
Ela era filha de Constante d'Aubigné, outro debochado, “ que assassinou sua primeira esposa com seu amante em 1619”, e de sua segunda esposa Jeanne Cardilhac.
Constante d'Aubigné era filho de Theodore Agrippa d'Aubigné, um calvinista intransigente, famoso poeta e amigo de Henrique IV, Rei de França e de Navarra, aquele que dize “ Paris vale uma missa”.
Agrippa d'Aubigné ficou conhecido graças a sua obra Les Tragiques, onde as Guerras da Religião são contadas, bem como as perseguições aos huguenotes, bem como “a punição dos conspiradores de Amboise e o Massacre de São Bartolomeu”.
“Após a morte de Richelieu, a família foi para as Antilhas francesas, onde d'Aubigné foi nomeado governador de Marie-Galante, embora ele e sua família permanecessem na Martinica. D'Aubigné retornou para a França por volta de 1645, quase na miséria, e morreu em 1647. Sua esposa e filhos retornaram à França do mesmo ano”.
Vida nada fácil da pequena huguenote, mas podia ter sido pior. 
Na volta da Martinica, a irmã de seu pai, Louise Arthemise d’Aubigné, ou Madame de Villette, fervorosa calvinista, deu mais uma vez abrigo a Françoise em seu Château de Mursay, em Deux-Sèvres, hoje na região Poitou-Charentes .
“ Sua madrinha, Madame de Neuillant, uma fervorosa católica, pediu a Rainha-mãe Ana da Áustria uma lettre de cachet para que ela cuidasse de Françoise e que, também, a permitisse praticar o catolicismo, e assim abjurar a Fé calvinista. A moçoila foi para num convento das Ursulinas, e “onde, graças à doçura e carinho de uma freira, a Irmã Celeste, a menina finalmente cedeu calvinismo. Agora católica passou a acompanhar sua madrinha, Madame de Neuillant, nos Salões Literários parisienses”.
Num deles conheceu seu grande instrutor, Antoine Gombaud, chevalier de Méré, um escritor que a apelidou de « la belle Indienne », a Bela Indiana, pois a Martinica ficava nas Índias Ocidentais francesas, e oficialmente ela tinha vindo de lá.


Le poète Paul Scarron, premier mari de Françoise d'Aubigné


Paul Scarron morreu e só deixou dividas, mas ela, com ele, adquiriu grande cultura.
Pensionista do Rei, ganhava uma pensão de 2.000 libras, mais uma vez por favor da Rainha-mãe Ana da Áustria.
E por três anos foi amante de Louis de Mornay, Marquês de Villarceaux, que a pintou desnuda.


Portrait de Françoise d'Aubigné,
par le marquis de Villarceaux
entre 1663 e 1664

Através de César Phébus d'Albret, chevalier des ordres du roi, Marechal de França, e outros Títulos, conheceu a prima desse, a famosa Maîtresse-en-titre du Roi, Françoise Athénaïs de Rochechouart de Mortemart, ou seja, Madame de Montespan, mãe “des les enfants légitimes du roi de France”, a saber:
Luís Auguste de Bourbon, Duque de Maine, casado com Anne Louise Bénédicte de Conde;
Luís César de Bourbon, Conde de Vexin, abade de Saint-Germain-des-Prés;
Louise Françoise de Bourbon, Mademoiselle de Nantes, casou com Luís III de Bourbon-Condé, Duque de Bourbon, sexto Príncipe de Conde;
Louise Marie Anne de Bourbon, Mademoiselle de Tours;
Françoise Marie de Bourbon, o segundo Mademoiselle de Blois, que se casou com Felipe d´Orleans, futuro Regente durante a minoridade de Luís XV;
Louis Alexandre de Bourbon, Conde de Toulouse.
Bonne de Pons, Marquesa d’Heudicourt, nascida protestante, como Madame de Maintenon, mas abjurou e se converteu ao catolicismo por conveniência, sobrinha do Marechal d'Albret, foi quem sugeriu Françoise d’Aubigné para governanta dos filhos legitimados do Rei Sol.
“A desgraça progressiva de Madame de Montespan, comprometida no caso dos venenos, nas missas negras, na magia barata, fez com que Françoise d’Aubigné se tornasse sua grande rival”.
E Françoise, née d’Aubigné, acabou casando com Luís Dieudonné.
Foi numa cerimonia privada, à noite, celebrada por François de Harlay de Champvallon, Arcebispo de Paris, na presença do Père La Chaise, confessor do Rei, do Marquês de Montchevreuil, de Claude, Conde de Forbin-Gardanne (Chevalier de Forbin), e Alexandre Bontemp, valet do Rei.
Nenhuma documentação oficial do casamento existe, mas que ela ocorreu, no entanto, é aceito pelos historiadores e biógrafos. A data é incerta pode ser na noite de 9 para 10 de outubro de 1683 ou qualquer noite de janeiro 1684.
Pelo sim, ou pelo não, se conta que essa união morganática durou de 9 de outubro de 1683 até 1 de setembro de 1715, portanto 31 anos, 10 meses e 24 dias, tempo esse usado por Françoise d’Aubigné para aumentar sua influência sobre Luís, Le Grand, daquele que afirmava “o Estado sou Eu”, de ‘le Roi Soleil”, do Vigário de Cristo na Terra, após a Sagração com os Santos Óleos, da divindade visível pela Doutrina do Direito Divino dos Reis.
Sua influência sobre Luís XIV era tanta que ela « criou » uma nova Era de rigor e devoção católico-romana, a ponto de la Princesse Élisabeth-Charlotte, Madame e Duquesa de Orleans, por seu casamento com Felipe, Monsieur le frère unique du Roi, lamentou o espírito de fanatismo que tinha se abatido sobre todos os frequentadores da Corte no Palácio de Versalhes, e de que nada mais era divertido durante " o reinado de Madame de Maintenon ".


Luís XIV em trajo de Coroação.

Como ela tinha grande poder sobre o Rei Sol, um sol já no poente, sua participação foi decisiva, tanto na revogação do Edito de Nantes, quanto na publicação do Edito de Fontainebleau.
E em sendo assim, culpada pelo massacre de seus ex- irmãos, huguenotes ou protestantes, nas História de França e, porque, não dizer, na da Humanidade.
Pelo Édito de Nantes, assinado na cidade de Nantes a 13 de abril de 1598, por Henrique IV, Rei de França e de Navarra, “ era concedido aos huguenotes a garantia de tolerância religiosa após 36 anos de perseguição e massacres por todo o país, com destaque para o Massacre da noite de São Bartolomeu de 1572”.
Pelo Édito de Fontainebleau, assinado no Château de Fontainebleau, em 23 de outubro de 1685, Luís XIV revogou o Édito de Nantes, “e 87 anos depois, a intolerância religiosa estaria de volta a Bela França e domínios”.
A bem da verdade, o Papa Inocêncio XI e a Cúria Romana foram contra o Edito, mas Luís ignorou o apelo papal, pois sua esposa morganática queria, porque queria, esse decreto real nefasto, para o seu reino.
“Os huguenotes voltaram a ser perseguidos, e com isso a maioria fugiu para o estrangeiro, causando grandes problemas econômicos ao país, problemas esses que só vieram a ser resolvidos na época do Segundo Império Napoleônico, no governo de Napoleão III, de 2 de dezembro de 1852 até 4 de setembro 1870, com o começo da forte industrialização na França”. "
Françoise d'Aubigné, intitulada Marquesa de Maintenon, conhecida como Madame de Maintenon, esposa morganático de Luís XIV, Rei da França e Navarra, por 31 anos, 10 meses e 24 dias, morreu no15 de abril de 1719, na Maison Royale de Saint-Louis, em Saint-Cyr, amada por pouquíssimos e odiadas por muitos e muitos.
A História da Humanidade é prova disso.

A vida de Françoise é a prova viva daquele celebre ditado:
O pior feitor é aquele que já foi escravo.



Cenas Brasileiras
Por Debret


Quem se beneficiou dessa emigração dos huguenotes e seus capitais, sua força de trabalho, sua dedicação a Sã Doutrina, foram os Países Baixos, a Holanda, e por via de consequência o capitalista Estados Unidos da América do Norte.