segunda-feira, 11 de maio de 2015

185 E - conversa - Uma explicação sobre A Sinagoga Portuguesa de Amsterdam


Pintura do interior da Esnoga
por Emanuel de Witte (c. 1680)

Uma explicação sobre A Sinagoga Portuguesa de Amsterdam


Interior, iluminada com velas

Portugees-Israëlietische Synagoge, a Sinagoga Portuguesa de Amsterdam, denominada de "Esnoga”, em hebraico אסנוגה, situada numa praça - Mr. Visserplein, « Place M. Visser », próxima do centro histórico de Amsterdam, frente ao Museu da História Judaica, que nos tempos de sua construção foi considerada a maior Sinagoga do Mundo.
Era e é um edifício monumental, datado do século 17, o chamado Século de Ouro da Holanda.
Seus organizadores foram os membros da congregação de Judeus de origem Sefardita que emigraram para os Países Baixos, a Congregação Portuguesa Israelita de Amsterdam.
“Entre eles estavam os comerciantes proeminentes e pessoas com grandes habilidades financeiras, hoje seriam banqueiros”.
“ Eles trabalharam com afinco, ombro a ombro com os protestantes, e contribuíram para a prosperidade dos Países Baixos”.
“ Defensores vigorosos da Casa de Orange, sempre foram protegidos por eles”.
“Durante os Doze Anos Trégua”, entre os espanhóis e os holandeses, “ o comércio aumentou consideravelmente, principalmente onde os judeus haviam estabelecido seus escritórios de comércio exterior, que incluía as relações comerciais anteriores com o Levante e com Marrocos”.
“O Soberano de Marrocos enviou um embaixador chamado Samuel Pallache, um judeu – marroquino, comerciante, diplomata e pirata, filho de um Rabino em Córdoba, através de quem, em 24 de dezembro de 1610, se chegou a um acordo comercial permitindo que o Sultão comprasse navios, armas e munições dos holandeses”.
“Foi um dos primeiros tratados oficiais entre um país europeu e uma nação não-cristã”.
O que dá a real medida da importância dos judeus de Amsterdam, dos judeus na Holanda.
Os Judeu foram co-fundador da Companhia das Índias Ocidentais Holandesa em 1621, com assento na Diretoria.
Em 1642, cerca de 600 judeus deixaram Amsterdam, acompanhado por dois ilustres estudiosos - Isaac Aboab da Fonseca, o Primeiro Rabino das Américas, e Moses Raphael de Aguilar, e vieram para Recife.
Com a Queda do Brasil Holandês, eles foram para outras localidades do Caribe e para New Amsterdam, hoje a pujante Nova York, a capital do mundo.
“Os Sefarditas de Amsterdam, também, estabeleceram as relações comerciais com outros países da Europa, principalmente no âmbito do Sacro Império Romano Germânico, a Germânia”.
“Muitos médicos estavam entre os judeus, incluindo Samuel Abravanel, David Nieto, Elias Montalto, e a família Bueno”.
E foram eles que deram os recursos para a compra do terreno para a construção da “Portugees-Israëlietische Synagoge”, a Sinagoga Portuguesa de Amsterdam, e assim o terreno foi comprado no dia 12 de setembro de 1670.
Ela foi projetada pelo arquiteto holandês Elias Bouman.
As obras começaram a 17 de abril de 1671, sendo inaugurada em 2 de agosto de 1675, 4 anos depois.


Vista interior de Tebá (bima) em direção Hekhal (arca)

Uma brevissima história da Comunidade Sefardita de Amsterdão
Após a expulsão dos judeus de Espanha pelos "Reis Católicos" através do Decreto de Alhambra de 1492, cerca de 130.000 fugiram para Portugal, onde haveria um número semelhante de judeus portugueses.
Em 1496/1497, no reinado de D. Manuel I, foram obrigados à conversão ao catolicismo, quer sejam judeus portugueses ou espanhóis.
Começou assim a perseguição ativa aos judeus em Portugal, consolidada com a entrada em funcionamento do Tribunal da Inquisição, em 1540 , e que perdurou até 1821.
Foi a partir de 1540 que apareceram os chamados "Cristãos-Novos", ou seja, os de origem hebraica, e seus descendentes, que foram  convertidos à força.
O demais foram perseguidos e oprimidos, por várias razões, tais como:
1-      Por que os judeus sabiam ler e escrever, e eles não , já que muitos nobres eram analfabetos de pai e de mãe, e a esmagadora maioria dos católicos era analfabeta, para alegria do Clero, que os enganava ate não poder mais.
2-      Por inveja do poder económico dos judeus.
3-      Porque os Soberanos não queriam pagar as somas que tomaram emprestadas.
4-      Porque a Igreja Católica desempenhava um papel desencorajador da actividade económica, proibindo a usura, enquanto ela emsmo a praticava diretamente ou indiretamente, eram o caso da Ordem dos Templatios, só dando um exemplinho.
5-      Porque os Clero catolico dizia: “ Os Judeus mataram Jesus”.
Os judeus, em Portugal, como era  e é tão frequente em outras partes do mundo, constituiam uma elite na Cultura, na Economia, na Medicina, na Cartografia e na Ciência em geral (uma tendência que continua a prevalecer – e só ver lista de prémios Nobel de religião judaica).
Por volta de 1596, muitas famílias portuguesas de ascedência judaica, fartas da opressão em Portugal e desejosas de voltar a praticar abertamente a sua religião, rumaram a Amsterdam (entre muitos outros destinos de refúgio).
Nessa altura, entre 1580 e 1640, no nosso querido Portugal reinavam os Reis Filipes, da Casa de Austria, os Habsurgos espanhois ,  “ Reis Catolicos” por reconhecimento Papal,  em guerra aberta com a Inglaterra,  e os Paisxes Baixos, a Holanda protestante, estava no epicentro desse fuzuê.
Foi nesssa altura que a Inquisição Espanhola, praticada no sul da Holanda, avivou a fama terrível que os Espanhóis teem na Holanda, ou seja, de ser um povo bárbaro, um povo das trevas.
A Holanda, país onde a Reforma Protestante ganhou muitos adeptos, foi dominio de Espanha católica por muitos anos, mas vivia em luta para conquistar a sua independencia política e religiosa como podia.
Assim se explica que não só os judeus portugueses que se refugiaram em Amsterdã, mas também os judeus espanhóis, tenham se rotulado de "Portugueses" para evitar a identificação com a Espanha inimiga.
Em 1599 havia apenas cerca de uma centena de portugueses em Amsterdã.
Em 1610 seriam perto de 200.
Por volta de 1725 seriam já 2.500.
Os judeus ibéricos (os chamados Sefarditas) em breve se tornariam uma minoria, com o afluxo de judeus dos territórios da Europa de Leste (os chamados Asquenazitas), mais numerosos mas normalmente mais pobres do que os "Portugueses", que ganharam na Holanda um rótulo de gente de cultura, de dinheiro e influência política.
Hoje, os nomes de família portugueses na Holanda (muito poucos, depois da invasão pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial mais de 80% dos judeus holandeses foram exterminados pelos Nazis), têm ainda uma aura de prestígio, intimamente ligado ao afluxo de judeus portugueses nos séculos 16 e 17.
Os judeus portugueses desempenharam um papel importante no desenvolvimento cultural e económico da República dos Países Baixos. Desfrutaram ali da liberdade de culto e de expressão, invejáveis para a maioria dos judeus nas restantes partes do mundo.
Essa comunidade judaica portuguesa produziria muitas figuras de renome nacional e internacional, rabinos, eruditos, filósofos, banqueiros, fundadores de companhias de comércio internacional.
Alguns desses nomes que já são verbetes nas Enciclopdias, tais como Baruch de Espinoza, Isaac de Pinto, David Ricardo, Menasseh ben Israel, Isaac Aboab da Fonseca, o primiero Rabino nas Amereicas, Uriel Acosta.
O historiador David Landes viu na saída das comunidades judaicas de Portugal e Espanha um factor prejudicial para as sociedades e economias ibéricas, ( como foi para a França dos Luizes)  anunciando o declínio de Portugal e Espanha no concerto da nações, então no auge da sua influência.
Em "A riqueza e pobreza das nações", relata-nos Landes:
"Quando os Portugueses conquistaram o Atlântico Sul, eles estavam na linha da frente das técnicas de navegação. A abertura para a aprendizagem com sábios estrangeiros, muitos deles Judeus, tinha trazido conhecimento que se traduzia directamente na aplicação prática, e quando em 1492 os Espanhóis decidiram obrigar os seus Judeus a adoptar o Cristianismo ou a sair, muitos encontraram refúgio em Portugal, então com uma política mais relaxada face ao Judaísmo. Mas em 1497, pressão da Igreja Romana e de Espanha levou a coroa portuguesa a abandonar esta tolerância. Cerca de 70.000 judeus foram forçados a um baptismo meramente formal. Em 1506, Lisboa viu o seu primeiro pogrom, que matou dois mil Judeus "convertidos" (a Espanha já vinha fazendo o mesmo desde há duzentos anos). A partir daí a vida intelectual e científica de Portugal desceu a um abismo de intolerância, fanatismo e pureza de sangue “
 “O declínio foi gradual. A Inquisição portuguesa foi instalada apenas na década de 1540 e queimou o seu primeiro herético em 1543; mas só se tornou cruelmente amedrontante a partir de 1580, após a união das coroas portuguesa e espanhola sob a pessoa de Filipe II de Espanha. Entretanto, os cripto-judeus, incluíndo Abraão Zacuto e outros astrónomos, acharam a vida em Portugal suficientemente perigosa para saírem em grandes números.
... Os cientistas, matemáticos e físicos cripto-judeus do passado tinham saído. Nenhuma outra minoria dissidente apareceu para tomar o lugar deles... se os ganhos da troca de mercadorias são importantes, esses ganhos são ainda pequenos comparados com os ganhos da troca de idéias".

Os efeitos da perseguição aos judeus para a Espanha e Portugal foram profeticamente anunciados por Isaac Abravanel, já mesmo em 1492, no seu texto “A resposta de D. Abravanel ao Decreto de Alhambra”, de onde se destacam as seguintes passagens:
“ Nos vossos corações, desconfiais do poder do conhecimento, e respeitais apenas a força. Conosco, judeus, é diferente. Estimamos imensamente o conhecimento. Em nossas casas e em nossas casas de orações, o aprendizado é uma ocupação para toda a vida. Aprender é nossa paixão, está no centro de nossos seres; é a razão, de acordo com nossos sábios, para a qual fomos criados. Nosso impetuoso amor pelo conhecimento tem contrabalanceado vosso excessivo amor por poder. Poderíamos ter nos beneficiado da protecção oferecida pelos vossos exércitos reais, e vós poderíeis ter tirado maior proveito dos avanços de nossa comunidade e da troca de conhecimento. Eu vos digo que poderíamos ter nos ajudado um ao outro.
Como somos lembrados de nossa própria impotência, então vossa nação sofrerá das forças do desequilíbrio que pusestes em movimento. Pelos séculos vindouros, vossos descendentes pagarão caro pelo vosso presente erro. Como está nas armas a vossa admiração, certamente vos tornareis uma nação de conquistadores - cobiçando ouro e despojos, vivendo pela espada e governando com punho de aço. Todavia tornar-vos-eis uma nação de iletrados; vossas instituições de conhecimento, temendo a contaminação herética de ideias estranhas de outras terras, e de outros povos, não serão mais respeitadas. No curso do tempo, o outrora grande nome da Espanha se tornará um provérbio murmurado entre as nações: Espanha, a pobre e ignorante; Espanha, a nação que tanto prometia e todavia terminou tão pequena.
E então um dia a Espanha se questionará: o que nos sucedeu? Por que somos motivo de riso entre as nações? E os espanhóis daqueles dias olharão em seu passado e se perguntarão por quê isso veio a acontecer. E aqueles que são honestos apontarão para este dia e para estes tempos quando a sua queda como nação começou. E como causa de sua ruína serão mostrados ninguém mais além de seus reverenciados soberanos católicos, Fernando e Isabel, conquistadores dos mouros, que expulsaram os judeus, fundaram a Inquisição, e destruíram a mente investigadora na Espanha.

Na Holanda, judeus foram sepultados com dignidade, a dignidade que merecem, em Beth Haim, um cemitério histórico judaico português, situado em Ouderkerk aan de Amstel, nos arredores de Amsterdam.
A comunidade judaica de origem portuguesa foi muito importante no século XVII, o chamado Século de Ouro dos Países Baixos, em que estes se estabeleceram como uma nação de relevo no contexto mundial.

Em 1655 um judeu foi, excepcionalmente, autorizado a construir uma Usina de açúcar.
Vários judeus sefarditas se destacaram durante esse tempo, incluindo Menasseh Ben Israel, que se correspondia com líderes cristãos e ajudou a promover o reassentamento judaico na Inglaterra; outro foi Benedictus de Spinoza (ou Baruch Spinoza), que seria excomungado da comunidade judaica em 1656 depois de falar suas ideias relativas (a natureza) de Deus publicados mais tarde em seu trabalho famoso “ A Ética”.
Esnoga ainda está sendo usada pela comunidade judaica de nossos dias.
Portanto, não é de se espantar que os judeus tivessem tanta importância nos Países Baixos, na Holanda, em Amsterdam e Roterdam...



Portugees-Israëlietische Synagoge,
 a Sinagoga Portuguesa de Amsterdam,
denominada de "Esnoga”,

em nossos dias.