terça-feira, 17 de março de 2015

146- conversa- Parte 5 Imperadores dos Franceses da Família Buonaparte - Napoleão II.

 NAPOLEÃO II

O Rei de Roma
Por Pierre-Paul Prud'hon
Pintor e desenhista pré-romântico francês.

Napoléon François Charles Joseph Bonaparte, Napoleon Franz Joseph Karl Bonaparte, Napoleão Francisco Jose Carlos Bonaparte, nasceu em 20 de Março de 1811, no Palais des Tuileries, Paris, e morreu de tuberculose em 22 de julho de  1832 no Palácio de Schönbrunn , Áustria, portanto com 21 anos.
Ao nascer recebeu o Título de Rei de Roma.
Empereur des Français de jure (Imperador dos Franceses de jure), Prince Impérial , ou Príncipe Imperial , Príncipe de Parma e por fim Duque de Reichstadt.
Tinha a saúde frágil, era um garoto magro, alto com quase um metro e noventa, de beleza delicada e melancolia, envolta numa auréola de mártir, já que era filho de um Imperador e de uma mãe tresloucada, ganhou a simpatia e compaixão de muitos membros da Corte de Viena, especialmente sua tia Sophie da Baviera.
Napoleão derrotado em Waterloo, na Bélgica, no dia 18 de junho de 1815 - batalha que marcou o final dos cem dias de seu retorno, iniciados com o celebre “Voo da Águia” ( Vol de l’Aigle ) -  abdicou em 21 de  junho  de 1815, no Palácio do Eliseu, Paris, em  favor de seu filho que logo foi aclamado pelos bonapartistas como Napoleão II.
Essa foi à segunda abdicação de Napoleão I em favor de seu filho, pois em 4 de abril de 1814, no Palácio de Fontainebleau, assinou a primeira.
Esse fato se deu após a derrocada de seus Exércitos na Rússia, na Batalha das Nações (a mais terrível de todas no contexto da Guerras Napoleônicas - 16 – 19 de outubro de 1813), nas denominadas “Campanha de França ou Batalha de França – outubro de 1813 até março de 1814” (La campagne de France).
Essa abdicação e aclamação de Napoleão II porem foi anulada por força do Tratado de Fontainebleau de 14 de abril de 1814 (rascunhado em 6 de abril), no qual Napoleão “renunciou por si e por seus   sucessores e descendentes, bem como para cada membro de sua família, qualquer direito de soberania e de dominação, tanto o Império francês e do Reino da Itália, mantendo os Títulos Imperiais, e recebendo a propriedade e soberania da Ilha de Elba, como Principado de Elba”.
Por esse Tratado Napoleão II recebeu o Título de Príncipe de Parma, ato que posteriormente revogado pelo Congresso de Viena.


 Marie Louise com seu filho, Napoléon.
1813
Por Gérard François Pascal Simon, Baron Gerard
Estudante de Jacques-Louis David
Um dos pintores mais importantes do Primeiro Império e da Restauração.

Acontece que em 23 de abril de 1814, Maria Luiza, “carregando na bagagem” o filho, abandona a França e vai para Viena, para a Corte de seu pai, onde é informada que poderá ostentar o Título de Duquesa de Colorno, uma localidade da Região da Emilia-Romagna, província de Parma.
Posteriormente o Congresso de Viena restabeleceu o Ducado de Parma, Piacenza e Guastalla e sua Soberania foi dada a Maria Luiza, que não levou seu filho Napoleão para com ela lá viver, deixando-o aos cuidados da dupla Francisco I/ Metternich. 
Maria Luiza na realidade jamais teve vontade de encontrar Napoleão em seu exilio na Ilha de Elba, apesar de alguns de seus escritos - ainda sob o impacto da queda do Império Francês- demonstrarem o contrário, pois ela não gostava de Napoleão, aquém sua família chamava de “Ogro”, e só casara com ele por dever dinástico.
A prova provada disso é que logo caiu nos braços do Conde Adam Albert Neipperg, colocado com seu ajudante de ordens e guardião por seu pai, o Imperador Francisco I, de conluio com o Príncipe de Metternich.
Depois de amancebada com Neipperg, Maria Luiza escreveu a Louise Antoinette Scholastique Guéheneuc, La Maréchale Lannes (Marechala Lannes), Duquesa de Montebello , sua ex-Dama de Honra, revelando que ela  nunca iria para Ilha de Elba, nunca ( “Je n'irais pas pour le moment dans l'isle d'Elbe et je n'irais jamais”) .
Depois que se tornou Soberana do Ducado de Parma, Piacenza e Guastalla, na Itália, com o nome de Maria Luigia, viveu abertamente com Neipperg, governador do Ducado.
O casal teve três filhos, que são considerados ilegítimos, mesmo depois do casamento morganático celebrados por eles em segredo no dia 8 de agosto de 1821, isso é após a morte de Napoleão em 5 de Maio de 1821, porque tal matrimonio feria as Leis da Dinastia de Habsburgos, das Casas Reais em geral, já que Neipperg era um Conde e não um Príncipe de Sangue Real.
Foram eles:
1-Albertina, Condessa de Montenuovo, que casou com Luigi Sanvitale, Conde de Fontanellato
2-Guilherme Alberto, Conde de Montenuovo, depois Príncipe da Montenuovo, que casou com a Condessa Juliana Batthyány von Németújvár, e que teve grande influência na Corte de Viena.
3- Matilde, Condessa de Montenuovo, que faleceu com um ano de idade.
Como não podiam ser Habsburgo- Neipperg passaram a ser conhecidos como membros da Casa de Montenuovo, numa tradução de Neipperg para o italiano.
Napoleão II ao saber da situação da mãe, de seu casamento com Neipperg – que ficou sabendo pelo Imperial-avô em uma das visitas do Conde-governador a Viena que era seu padrasto- e dos novos irmãos, suspendeu toda a correspondência com Maria Luiza, agora Maria Luigia.
Maria Luiza era irmã de Dona Leopoldina, a “Mãe da Nacionalidade Brasileira”, nossa primeira Imperatriz. 
Klemens Wenzel Lothar Nepomuk von Metternich, Príncipe de Metternich-Winneburg-Beilstein,ou simplesmente Príncipe de Metternich,  responsável pelos negócios do  Império Austríaco, líder das Nações vencedoras reunidas no  Congresso de Viena (2 de maio de 1814 e 9 de Junho de 1815), posteriormente guardião dos princípios ( legitimidade, equilíbrio e restauração das antigas Casas reinantes)  nele estabelecidos  através da “ Santa Aliança”, “aliança político-militar reunindo exércitos de Rússia , Prússia e Áustria prontos para intervir em qualquer situação que ameaçasse o novo “established “ na Europa ”, não o permitiu que fosse entregue a seu pai, exilado em Elba, com medo de uma “ restauração bonapartista” - fato que se deu com Napoleão III muitos anos depois.
Destaco que Metternich “apoiou vigorosamente a Restauração da Dinastia dos Bourbon em França”, logo um Bonaparte no Trono Imperial Francês nem pensar.
Porem ele tinha uma “batata quente nas mãos” que era Napoleão II, o neto de seu “patrão” por quem esse se afeiçoara, daí que aconselhou ao Imperador Francisco I da Áustria, avô do cognominado “l'Aiglon”, o “filho da Águia”, que o elevasse a condição de Alteza Sereníssima o Duque de Reichstadt.
Reichstadt era uma cidade pequena em Bohemia e agora é chamado Zákupy e faz parte da República Checa. Seu nome alemão que significa "cidade imperial".
Francisco I, convencido, queria dar-lhe um título, armas, rendas, que permitisse ao neto manter com dignidade sua posição na Corte, para isso elevou a cidade de Reichstadt a condição de Ducado hereditário e em sendo assim garantiu uma substancial renda para seu neto.
Pelo rígido ‘Protocolo de Corte’, a Corte da Áustria era rigidíssima, quando ao uso dele, o Duque de Reichstadt estava situado imediatamente após os Arquiduques da Áustria, Príncipes de sangue do Império Austríaco.
O agora chamado FRANZ, nome recebido por causa de seu avô materno, em detrimento aos demais nomes que homenageavam o pai, o avô paterno, e um de seus tios, fez carreira nas tropas do Imperador da Áustria, ou seja, no exército tradicionalmente inimigo da França e de seu pai, o Imperador dos Franceses.
Em 1822 seu avô o nomeou Korporal, em francês é "Caporal", no Brasil seria Cabo, e nessa ocasião Napoleão II apareceu pela primeira vez na Corte usando um uniforme militar.
 O engraçado é que Napoleão I, no começo de sua carreira, foi um dia chamado de “Petit Caporal”.
Em 17 de agosto de 1828 foi nomeado Capitão no Regimento de Tiroler Kaiserjägers (caçadores tiroleses do Imperador).
Maria Luiza, num rasgo de generosidade e tentativa de aproximação, lhe enviou o sabre paterno, o famoso “Sabre das Pirâmides” (le sabre des Pyramides, hoje no acervo Museu do Exército em Les Invalides-Paris).
Depois de participar das manobras de campos dos Caçadores tiroleses, onde se destacou, no início de julho de 1830, foi nomeado Coronel no Regimento Lamezan-Salins (n° 54).
14 de junho de 1831, foi destacado para servir Regimento de Infantaria Húngara n º 60.
Apesar do presente materno ele de muito não tinha a mãe lá em grande conta.
O Conde Anton von Prokesch-Osten em suas memorias (As Minhas Relações com o Duque de Reichstadt - Mein zum Verhältniß Herzog von Reichstadt-  Paris-1872)   nos revela que Napoleão II dize a ele que se sua mãe fosse Josefina nem o pai acabaria na Ilha de Santa Helena, nem ele estaria naquelas condições na Corte Avoenga e mais, que sua mãe era uma criatura de uma espécie inferior, mais fraca, e que “ela não era a esposa que meu pai merecia”.
Por essa revelação histórica podemos deduzir que Napoleão II não era lá muito feliz na Corte de Viena, o próprio Conde revelou que ele era um puro sangue entre “dois cavalos de tiro da Boemia e um cavalo de fiacre italiano” (« pur-sang entre deux chevaux de trait de bohême et un cheval de fiacre italien »).
Contudo parece que ele encontrou o amor.
Abandonado pela mãe, apreciado, mas quiçá incompreendido, pelo avô que queria fazer dele um Príncipe Habsburgo, ao contrair tuberculose foi assistido pela Arquiduquesa Sophia, citada acima, nos últimos meses de sua vida e foi com ela que encontrou esse amor.
Seu tio Arquiduque Franz Karl Joseph (Francisco Carlos José), terceiro filho do Imperador Francisco I, irmão de sua mãe nascido em 1802, era “um tanto débil mental”, contudo ele não era o Herdeiro da Coroa Imperial Austríaca, pois antes dele havia Ferdinand (Ferdinando ou Fernando), nascido em 1793
Foi escolhida para ser sua esposa Frédérique Wilhelmina Sophia Dorothea, da Casa de Wittelsbach, Princesa da Baviera, depois Arquiduquesa da Áustria, ou simplesmente Arquiduquesa Sophia, e se casaram em 4 de novembro de 1824.

Sophia, Arquiduquesa da Áustria , nascida Princesa da Baviera, da Casa de Wittelsbach,

Note-se que a Arquiduquesa Sofia, como seu pai o Rei Maximiliano I da Baviera, da Casa de Wittelsbach, que devia seu Trono Real a Napoleão I, era uma fervorosa bonapartista.
Fernando I, que era epilético e tinha um problema de fala, casou-se com a Princesa Ana Maria Carolina Pia de Savoia, filha de Vítor Emanuel I, Rei da Sardenha, mas não o consumou.
O governo era exercido por um Conselho - composto entre outros pelo Príncipe de Metternich- que era odiado pelos povos do vasto Império e como não podia deixar de ser acabou acontecendo uma revolução, a Revolução de 1848.
Uma de suas consequências além da fuga de Metternich para Inglaterra, foi que Fernando I foi convencido pelo Príncipe Felix zu Schwarzenber, que havia conseguido dominar a revolução,  a abdicar em favor de seu sobrinho, Franz Joseph ( Francisco José I) que iria ocupar o trono austríaco para os próximos 68 anos.
Acontece que para essa abdicação fosse legal se fazia necessário que o Arquiduque Francisco Carlos, o segundo na Linha de Sucessão, renuncia-se a seus Direitos em favor de seu filho.
Não deu outra, Sophia obrigou ao marido a renunciar os seus direitos ao Trono em favor de seu filho Francisco José, fato que ocorreu em 2 de dezembro de 1848, e que teve como resultado a Arquiduquesa ganhar o epiteto de "o único homem na família ".     
Portanto Sophia é a mãe Sua Majestade Imperial e Apostólica, Francisco José I (Franz Joseph I), pela Graça de Deus Imperador da Áustria, Rei da Hungria e Boêmia, Dalmácia, Croácia, Eslavônia, Galiza, Lodomeria e Illyria, Rei de Jerusalém, Arquiduque da Áustria, Conde do Principado de Habsburgo e Tirol, de Kyburg, Gorizia e Gradisca,  Grão- Príncipe da Transilvânia, Príncipe de Trento, de Bressanone, de Berchtesgaden ,de Mergentheim,   Grão-Duque da Toscana e Cracóvia, Duque de Lorena, Salzburg, Würzburg, Francônia, Estíria e Caríntia, Carniola e Bucovina, Duque da Silésia superior e inferior, de Modena, de Parma, de Piacenza, de Guastalla, de Auschwitz, de Zator, de Teschen, de Friuli, de Ragusa, de Zara, Margrave da Morávia de Lusatia superior e inferior, de Istria,  Conde de Hohenems, de Feldkirch, de Bregenz, de Sonneberg, Senhor de Trieste, de Kotor e Caminhe por Windisch, Grand Voivode da Voivodship da Sérvia, marido de sua querida Sissi .
A Arquiduquesa Sophia nasceu em 27 de janeiro de 1805 e Napoleão II em 20 de Março de 1811, portanto a diferença entre os dois era de seis (6) anos, o que não era muito assim, mas em se tratando de tia e sobrinho o caso se tornou um tanto ou quanto sobre o alcantilado.
Um outro filho de Sophia foi Maximiliano de Habsburgo-Lorena, Arquiduque da Áustria, Príncipe da Hungria e da Boêmia, portanto reconhecido como filho do casal Francisco Carlos e Sophia, morreu fuzilado como Imperador do México, empreitada desastrosa patrocinada por Napoleão III, Imperador dos Franceses.
Acontece que historicamente se diz que Maximiliano, que nasceu em 6 de julho de 1832, portando 16 dias antes da morte de Napoleão II (22 de julho de 1832) era filho do Duque de Reichstadt com a Arquiduquesa Sophia, mais um  Wittelsbach /Bonaparte nessa Europa tão conturbada.
Devemos nos lembrar de que a irmã mais velha de Sophia era a Princesa Augusta da Baviera, casada por ordem de Napoleão, com o Príncipe Eugênio de Beauharnais, filho da Imperatriz Josefina adotado por Napoleão e que eles são os pais de nossa terceira Imperatriz, Dona Amélia (Dona Amélia Augusta Eugênia Napoleona de Beauharnais - Amélie Auguste Eugénie Napoléone de Beauharnais), Princesa de Leuchtenberg.
Voltemos...
Morto o “Duque de Reichstadt foi vestido em seu uniforme branco de coronel do regimento de infantaria, sendo apresentado ao público em um caixão”, tendo “oficiais da Guarda Imperial formado uma a guarda de honra em volta do féretro. Uma grande multidão, apesar da hora tardia, veio para ver o corpo”.
Foi levado com toda honra e pompa para a Franzensgruft, no espaço ou Cripta destinada a família do Imperador Francisco I, na Igreja de Santa Maria dos Anjos, da Ordem dos Capuchinhos, daí conhecida como Igreja dos Capuchinhos, em Viena, onde estão os túmulos da Casa de Habsburgo desde 1633.
Em 1940 Napoleão II retornou a sua cidade natal, Paris.
Otto Abetz, Embaixador do III Reich em Paris, considerou que a volta dos restos mortais de Napoleão II seria de bom alvitre para melhorar as relações com o Governo de Pétain, Governo de Vichy, e aconselhou a Adolfo Hitler que tomasse tal atitude.
Em  15 de dezembro de  1940, “data escolhida para acontecer 100 anos depois do retorno das cinzas de  Napoleão  I que ocorreu em   15 de  dezembro de  1840”, os oficias do III Reich, apesar de discreta, sem alarde, mas numas  dessas cerimonias militares que só os alemães sabem promover, depositaram as cinzas de Napoleão II no L’hôtel des Invalides, sob uma lapide onde está escrito “ Napoléon II - Roi de Rome / 1811- 1832”.
Chamo atenção que era costume entre os Habsburgos separar o coração e as vísceras dos retos do corpo do defunto e enterra-los em outro local, no caso de Napoleão II seu coração e suas vísceras permaneceram em Viena, o primeiro na Herzgruft (cripta do coração) sob o número 42, e o segundo numa urna da Cripta Ducal sob o número 76.  
Franz, como ficou sendo chamado na Corte de Viena Napoleão II, não faz parte da lista do agraciados com a Ordem do Tosão de Ouro da Áustria, apesar de que essa condecoração pertencia aos Habsburgos.
Assim se conta a História daquele que nasceu para ser o Herdeiro do Senhor da Guerra e da Europa, rebento único do “Filho dileto da Fortuna” e de uma Princesa da milenar Casa de Habsburgo.
Assim se conta a História de Napoleão II – Rei de Roma, Empereur des Français de jure (Imperador dos Franceses de jure), Prince Impérial (Príncipe Imperial), Príncipe de Parma, historicamente, também, conhecido como Franz, Herzog von Reichstadt -  filho de Napoleão Bonaparte e da Arquiduquesa Maria Luiza de Habsburgo, Imperadores dos Franceses, Reis da Itália.


O Duque de Reichstadt em seu leito de morte no Palácio de Schönbrunn,
 na mesma sala que seu pai ocupou
 depois dos triunfos de Wagram e Austerlitz,
 por Johann Nepomuk Ender.


Túmulo de Napoleão II na cripta dos Invalides.